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sábado, 12 de novembro de 2016

O Filósofo Burguês...







Lembro-me deste querido amigo com uma saudade dorida, mas sempre acompanhada de um sorriso. A nossa amizade sempre foi recheada pelo o humor; o meu amigo era um perito da ironia desconcertante e sedutora. Reclamava de mim, sempre dizendo que eu não levava a sério o seu mau humor e visão ácida (crítica) do cotidiano... 

Tínhamos filosofia e visão de mundo bem diferentes. No gosto musical, na literatura, cinema e artes em geral, éramos como irmãos gêmeos; estávamos na mesma sintonia. Ele não suportava o contato com a natureza, apesar de adorá-la como imagem de contemplação. Colocar os pés no chão, para ele, era despir a sua alma. Assim dizia: “nada melhor do que um ar condicionado; aquele botão para diminuir ou aumentar a temperatura; um bom livro na mão ocupando os olhos ao preenchimento da mente e à audição, o sublime noturno de Chopin...”

Não entendia a minha necessidade da natureza, a mãe terra. Por isso me apelidou de “menina das borboletas” e, por sua vez, o apelidei de o “filósofo burguês”.  Fora isso, era de uma humanidade luminosa e genuína (atitudes de solidariedade e altruísmo raros), mediante garantia de anonimato. Ele ria quando eu verbalizava que adorava “a sua gentileza rústica”.

Às vezes, quando nos encontrávamos para conversar no café; apreciar um cappuccino e trocar informações preciosas sobre literatura, música e artes em geral. Tudo saboreado pelo senso de humor... Ele afirmava:      
- Su, fico impressionado como tu és identificada com a minha geração. Só te localizo na geração a que pertences, nos teus projetos de “menina das borboletas”; pela sintonia com a natureza, meditação e autonomia feminina. Há uma diferença de gerações entre nós, que poderia constituir um abismo, entretanto, tu és a amiga mais próxima, a única que percorreu um caminho por dentro de mim (alma). A única que conhece o grafite do meu mau humor por todos detestado.  Só tu desabas de rir, não me levando a sério e me afastando do compromisso de ser intransigente. Mas não sou um intransigente qualquer, sou um intransigente irônico!
Antes de responder, observei que o meu amigo estava emocionado, como nunca tinha visto antes. Pressenti algo, uma sensação tão estranha, uma ausência (futura?) dele.
- Este “filósofo Burguês” está tão sensível hoje, que estou com saudade do seu lado grafite! Tem algo novo para me dizer?
- Sim. Minha namorada eu a amo, os meus filhos e os poucos amigos, também. Mas a ti, minha doce amiga, eu amo e adoro!...
- Essa despendida é por conta “deste adoro”, que só a mim pertence. Fico sem este abono e prometo suportar o teu humor grafite, sem nenhuma desmoralização, sem nenhuma crise de riso frouxo...

Fazia meses que não nos encontrávamos, sendo aquele o nosso último encontro regado da nossa amizade. Um dos melhores amigos que tive... Cada vez mais a minha listinha é curta, mínima. Amizade é uma joia rara de se encontrar; o mundo está repleto de joias falsificadas, de fácil acesso na vitrine das aparências.

Uma semana após o nosso encontro, recebi um aviso da sua namorada (ele era divorciado), que ele estava internado no hospital, aguardando uma cirurgia. Quando fui visitá-lo, constatei o cenário original: as enfermeiras sorrindo com o “texto hilário” do meu amigo, as palavras ironicamente pousadas no ambiente, transcendendo a monotonia habitual do hospital. 

No dia da sua cirurgia cardíaca, ele segurou a minha mão:
- Saindo desta sala pré-morte, irei participar dos teus projetos de “menina das borboletas”; respirar ar puro, meditar até o nada do silêncio, mas se não, irei para o nada do silêncio também... 

Eu só chorava num silêncio das palavras boiando numa dor latejante... Ele, com as mãos fazendo o movimento, como o das asas das borboletas...

Ele não resistiu à cirurgia. Até hoje, quando medito, encontro-o no silêncio do nada.

Hoje, seria dia do seu aniversário. Imagino que deves estar fazendo barulho no silêncio... Como sinto saudade do teu barulho sonoro (Beethoviano), meu amigo!...

Outubro - 2015


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Lídia Wylangowska.






                  



quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Digo Não ao Chip Humano!





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Em breve poderemos, com esta tecnologia “avançada” e invasiva, nos ser implantado um chip com todos nossos dados e seremos previsíveis quanto à nossa localidade. Ninguém se perderá numa floresta e provavelmente não teremos mais nenhuma floresta, tudo será fabricado artificialmente e nos restará a opção de mudar a cor e sentir o aroma artificial dos cheiros da natureza, igualmente a comidas que têm o aviso minúsculo de “sabor morango” e o morango é uma fruta muito antiga que perdeu a sua essência natural para uma tinta rosa com gosto de tinta com açúcar;  açúcar que também não é mais  açúcar...

Quando houver aquela fila enorme formada para todos serem efetivamente “chipados”, com algum discurso politicamente correto, de algum político eticamente incorreto (políticos são seres de mil vidas e mil caras e nunca teve chip que desse conta da sua extinção...),  numa abordagem do conformismo da civilização ultramoderna, que elimina os caminhos e jamais se perder nas rotas, todas as rotas são verificadas pelo chip, que oferecerá duas direções: esquerda e direita, porém, também, não existe mais a esquerda, esta foi alterada pelos americanos (donos do projeto dos chips), compraram esta alteração da esquerda no mundo todo.

Neste dia eu estarei com uma placa escrita à mão, trazendo a arte antiga da escrita, com os dizeres: - Digo Não ao Chip Humano!



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Alex Alermany.
  

sábado, 17 de setembro de 2016

As Pazes com a Natureza...





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A memória abriu a porta e me levou a um período em que morei numa casa duplex num privê de dez casas, com uma bela área verde de lazer, onde eu gostava de preservar aquele verde com árvores antigas e, na minha casa, muitas plantas. Na varanda do primeiro andar eu tinha vários depósitos para os beija-flores e outros passarinhos (a beber aquela água doce, trocada com o maior carinho e limpeza), de todas as cores e tamanhos a colorir em vida a minha varanda. Eu tinha o meu gato Shan (filhote ainda) que ficava a olhar todos através do vidro da janela do meu quarto. Era o seu vídeo game e, para mim,  um encontro com cada um que tinha nome e sobrenome, dado pelo meu olhar atento e alegre, de me sentir privilegiada com tanta beleza voando para minha casa, como se casa deles fosse.

Existia no privê um grupo de seis meninos; o mais velho, de oito anos,  liderava os menores, na faixa de 7 anos. Estavam naquela fase de agressividade com a natureza, os animais e numa autoafirmação do contra. Eles não gostavam da minha veneração amorosa à natureza.

Um dia fizeram uma "serenata" com música e letra de protesto contra a natureza bem abaixo da minha varanda, com coreografia e tudo, cada um com baleadeira na mão e o líder com o violão, cantavam e todos apontavam as suas armas de matar passarinho para minha varanda:                            
                                             "Vamos acabar com a natureza;
                                             Vamos matar os passarinhos,
                                             Vamos destruir os seus ninhos
                                             E sem mãe natureza.
                                            Fora os passarinhos
                                            Fora os passarinhos
                                            Fora os passarinhos
                                            E sem ninhos...!”

Eu a escutar e morrer de rir, com aquela criatividade rebelde deles. Como eles não sabiam a minha reação, por conta do meu silêncio, falarem de fora: “Ela não fez nada. Não disse nada. Será que ela não está em casa?” Quando resolvi abri a porta,  escutei de longe a gritaria deles: ”Ela abriu a porta e vem em nossa direção!”.

Aproximei-me deles e disse: - Meninos, sentem aqui e vamos conversar!- Eles se aproximaram devagar, e cada um falava uma frase ao mesmo tempo, numa confusão a dissolver o silêncio no breve espaço pacifico... O líder me disse: “Você veio brigar com a gente por nossa música e vai reclamar aos nossos pais pelo nosso comportamento?” E eu com a minha voz calma a lhe dizer que gostaria de dialogar com eles. E, eles a olharem entre si, sentaram perto de mim. Conversamos por varias horas, e falei da criatividade deles com a música, letra e coreografia. Depois a importância de amar a natureza e conviver bem com ela, pois ela nos ensina se tivemos a capacidade de olhar para cada detalhe belo e generoso que ela nos oferece todos os dias...

No final estávamos a observar os passarinhos, da minha varanda, e quando o líder me disse: “ Su, como faço outra música para a natureza, como faço as pazes com ela?” E eu lhe respondi: - Você já fez as pazes com a natureza, a música vai chegar e será muito bela!...-



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Arsen Kurbanov





terça-feira, 23 de agosto de 2016

O Rei da Sorbonne










A professora da cadeira de Teorias da Personalidade seria substituída por um amigo professor com Doutorado na Sorbonne. Ele iria ministrar as aulas durante o período de uma cirurgia e repouso a que a referida professora teria que cumprir, por recomendação médica. Ele (o professor), embora nascido no Recife, estava voltando de Paris para um período de seis meses e, por questão de currículo, contratado pela faculdade durante esse tempo. Desnecessário se faz dizer o quanto havia de devoção por parte da diretoria da faculdade, por conta do título que ele fazia questão de exibir.

No primeiro dia de aula, ele se apresenta com uma roupa formal de grife francesa, mais um belo casaco também francês, de outra grife famosa (o detalhe importante é que o nosso clima é sempre quente), colocou o casaco vestindo a cadeira, com a etiqueta da grife virada para nós, uma turma de 45 alunos, 44 mulheres e um único homem. Depois num discurso descritivo sobre o seu currículo e eu, ao perceber a sua vaidade espumando, sua arrogância de nos comunicar que teríamos a oportunidade de assistir as aulas de um Doutor em Psicologia com a especialização em Teoria da personalidade. No meio do seu afetado discurso, fazia questão de inserir palavras do idioma francês.

Assim seguia todas as aulas: o casaco vestindo a cadeira com a etiqueta à mostra e o esnobismo do Doutor, na tentativa de humilhar a nossa turma. Olhei para minha amiga Mary que, ao observar e decodificar minha inquietude, disse: “Su, não vale a pena, ele com certeza irá te perseguir e prejudicar. não vale apena amiga!”,  e eu concordei com a sensatez da minha amiga; o meu silêncio prevaleceu  com término da aula de exibição do Doutor.  Nunca invente de interromper esse Rei da Sorbonne, confiante em se auto afirmar na sua autoridade especial, afinal ele já é quase um “francês”, não mais um nordestino do terceiro mundo – disse a minha Amiga Mary, no caminho de casa...

Houve um dia em que Mary faltou à aula e eu, a contar e recontar internamente, para não reagir àquela estupidez egoica e habitual do Rei da Sorbonne... Ele a dizer que tinha autoridade e permissão da professora legitima da cadeira, para reprovar qualquer aluno que não correspondesse ao seu “padrão de exigência”, e, numa ameaça sarcástica, disse que a nossa turma estava no nível abaixo das suas expectativas e questionou quem poderia da turma responder o que era o arquétipo? Daí eu levantei a mão para responder o que era um arquétipo?  Ele me olhou espantado e, ainda sarcástico, disse: - “Será que você poderá me dar a resposta certa, já que esta turma até agora, não manifestou nem uma competência, sobre os assuntos brilhantemente abordados por mim?” Eu perguntei se poderia exemplificar um arquétipo. Ele me disse: - “Se você conseguir dar um exemplo correto é melhor do que o conceito”. Foi quando eu lhe respondi: - O senhor é um perfeito arquétipo de professor! Ele, a me olhar irritado e a repetir o que foi que você disse?  - Professor, como pode o senhor com toda a bagagem acadêmica da Sorbonne e não compreendendo a minha exemplificação do conceito arquétipo? A turma toda desabou numa gargalhada... Ele finalizou a aula e olhou para mim, por favor: quero falar com a senhorita – disse raivoso. Como já conhecia aquele olhar de professor, sedento de me perseguir, entendi a falta de Mary naquele momento, a sensatez dela me fez falta...

Depois que todos da turma haviam saído, ele olhou nos meus olhos e disse: -“Você brincou com fogo, mocinha!” E eu prontamente disse-lhe: - Não gosto de brincar com fogo, Doutor, eu pulo o fogo, como se fosse um obstáculo. “Suzete Brainer! Eu vou complicar a sua vida, terei o prazer de reprová-la!” Ao que eu prontamente perguntei: - Doutor professor, o senhor está me coagindo e constituindo, com seu ato covarde, uma ameaça de abuso de poder, sem nenhuma testemunha e achando que eu vou ficar morrendo de medo; facilitar para que o senhor injustamente me prejudique por lhe responder corretamente a sua pergunta na sala de aula? Ele, a me encarar com uma autoridade tão grande, que a sua baixa altura, magicamente tinha aumentado alguns centímetros (o que um Ego não faz?): - “Não vou esquecer que a senhorita fez uma turma toda gargalhar de mim, se prepare que você será reprovada!” No tom bem calmo, eu prontamente lhe respondi: - A manifestação da turma chama-se catarse, professor. Estes três meses aguentando o senhor a fazer piadinhas, desqualificando uma turma inteira, a mostrar o excesso de importância que o senhor pensa que tem, aconteceu o momento da catarse. Doutor professor fique o senhor sabendo que eu também não vou aceitar fácil esta sua vingança. Diferentemente dos alunos a quem o senhor tem ensinado, irei lutar por meus direitos legítimos de aluna ameaçada, meus direitos legais. Sai da sala sem olhar para trás e com a certeza de uma luta renhida e muito chata a enfrentar pela frente. O que está feito, está feito – pensei. O que me restava agora era buscar meios corretos de não ser prejudicada pelo Rei da Sorbonne.

No dia da prova ele fez uma surpresa para a turma toda. A prova seria individual, (algo totalmente contrário ao de costume da professora da cadeira, que sempre realizava a prova em dupla). Mary olhou para mim, sabendo que o vingativo professor planejava. Com este modo individual, ele poderia executar o seu plano de me colocar para a prova final, e assim, poder me reprovar concretamente.

Na aula seguinte, ele devolveu as provas com as notas e – claro - me colocou uma média em que eu estaria para prova final. Quando vi a prova, prontamente comuniquei à turma que o Doutor Professor tinha um plano de vingança para me reprovar, que após aquela catarse de gargalhada da turma, provocada por mim, ele teria me ameaçado com a vingança da reprovação. Ele ficou surpreso com a minha coragem de comunicar a turma, e contra-argumentou que avaliação era a subjetividade do mestre da cadeira e nada disso constituía uma vingança. Foi quando ele conheceu o Leo (único homem da turma), com a sua ironia cortante, levantou-se e disse: “Lamento muito de não ter vivenciado a catarse da gargalhada, quando estou presente na sua aula, ela tem um propósito muito nobre: o de me fazer dormir depois da minha farra da noite anterior. O senhor reprovar a Suzete Brainer é um ato de uma burrice, que deixa a evidência que o senhor comete o crime de abuso de poder e vingança. Isto será de conhecimento de todos.” O professor com muita ironia diz para o Leo: - “Não adianta a sua defesa de paixão por Suzete; eu sou única autoridade para decidir sobre avaliação das provas dos alunos”. O Leo, muito irônico, mestre  em desconcertar qualquer um que lhe provocasse, diz: “Professor, vou lhe dar outro exemplo de arquétipo, eu sou homossexual assumido, o arquétipo do único homem que cursa Psicologia numa turma de mulheres, uma bichona, professor (faz os trejeitos com as mãos), e, por isso, não posso ser apaixonado por Suzete, mas eu a admiro muito, tanto que vou deixar que o senhor direcione a sua vingança para mim. O senhor me reprova e a sua reprovação será adequada, pois eu nunca tiro notas excelentes, assim, ninguém suspeitará do senhor pela minha  reprovação!” A turma toda a gargalhar  e o Leo adorando aquele espetáculo acabando a aula do Rei da Sorbonne, que foi embora com tanta raiva que esqueceu o seu troféu: o casaco na cadeira pela a primeira vez. Eu abraço o Leo e digo que ele quer colecionar reprovações, que ele precisa encontrar um curso que a leve a sério.  Ele olha para mim, me diz baixinho: - “No dia que eu me levar a sério, eu morro, enquanto isso, eu faço alguma coisa boa para pessoas sérias como tu, Su!” Eu emocionada, não digo mais nada...

No outro dia eu vou à coordenação de apoio ao estudante, a qual, nunca teve nenhuma queixa formal contra nenhum professor. Aquele departamento atuava noutras funções e não na função específica que a ele era designada. A Célia, coordenadora muito querida dos alunos e dos professores,  sempre encontrava o bom caminho de dissolver conflitos; na maioria dos casos com prejuízos para os alunos. Quando, ela me escuta a querer fazer um registro de queixa do professor Sorbonne, fica apavorada. Tenta de todas as formas a me convencer de não realizar o registro, situação impossível de acontecer, pois eu estava totalmente decidida. A minha discussão foi com a minha amiga Mary, que quis ser testemunha e levar a prova dela como elemento de comparação, a fim de evidenciar  que a minha prova era melhor que a dela e ela estava com nota bem melhor e já aprovada por média. Célia olha a prova de Mary, constata a má-fé do professor na avaliação, mesmo assim eu não queria que a Mary se envolvesse, mas ela argumentou com toda razão, que já estava aprovada e que a prova dela serviria como elemento fundamental de comparação com a minha, a fim de que os avaliadores percebessem o erro do professor.

No dia marcado da prova final, para nossa surpresa ele diz que a prova será em dupla.  Antes da prova ele me pediu para retirar a queixa, dizendo que aquela ameaça teria sido uma brincadeira dele. Eu lhe disse que levava muito a sério as brincadeiras e por isso não ia retirar. Eu pergunto ao professor se posso fazer a prova individual, pois não queria levar ninguém junto comigo a reprovação. Vânia, que sempre foi uma inteligência superdotada, manifestou a vontade de fazer a prova comigo - uma oportunidade única - pois sempre fiz provas em dupla com a Mary e nunca fomos para a final. Eu fiquei relutante em aceitar, mas ela insistiu muito e fizemos uma excelente prova. Ela me disse que tinha feito à prova anterior péssima, pois tinha ficado com resistência à afetação do professor e não tinha estudado o assunto, mas agora estava preparada e tinha ficado indignada com atitude do Rei da Sorbonne comigo, na avaliação da minha prova.

Ele corrigiu as provas na hora e único dez foi dado à nossa prova.  Não reprovou ninguém, a não ser o Leo que não compareceu à prova. Antes da minha saída da sala, ele me declarou: - “Suzete Brainer, você tem competência e mereceu a nota máxima com a Vânia Bastos, parabéns para as duas!”. E minhas últimas palavras para ele: - Professor a competência é muito maior que resultados, notas e títulos; a competência é nunca perder a ética para se avaliar  imparcialmente as pessoas; não me conformo com o abuso de poder de supostas autoridades em qualquer setor, a cometer injustiças por questões egoicas. Agora irei retirar a queixa, para que seu currículo continue perfeito. Espero sinceramente que o senhor se torne mais humano e menos astro!

No corredor à minha espera estava Mary e Nara (que cursava na outra turma) e, distante, numa cadeira, o Leo no maior sono.

Dedico esta crônica à amizade; àqueles amigos queridos que o tempo e as vicissitudes da vida faz questão de separar, mesmo sendo - como foi - tão bom estarmos juntos. De todos, só a Narinha que me visita neste blog. Aos outros que ficaram na minha memória afetiva, como símbolo de solidariedade tão humana, na dimensão mais sublime que uma amizade pode alcançar, eu desejo uma Paz Profunda e muitas Felicidades, sempre!



Suzete Brainer  (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Matisse.




sexta-feira, 24 de junho de 2016

A Menina que Gostava de Perguntar, Mas Não Gostava de Mentiras.












Estou eu aqui novamente voltando para a minha infância, mas coleciono algumas histórias boas de serem contadas, talvez não escreva tão bem como as tenho guardadas na minha caixa de histórias. Esta caixa foi presenteada pela minha avó. Quem teve uma avó contadora de histórias, fica com os olhos a brilhar na luz da imaginação...

A minha avó tem muita responsabilidade pela minha alegria de criança e também por sempre gostar de saber como tudo funcionava, antes de escurecer as repostas, sempre tinha as  perguntas que não calavam o final sem propósito.

Qualquer experiência nova ou lugar novo, sempre vinha com as minhas perguntas, para desagrado dos adultos que não gostavam de responder e nem de pensar.

Assim começou a tragicomédia das minhas idas aos dentistas. Minha mãe levando a mim e minha irmã, sem nada dizer para quê e o que fazer lá. A minha irmã (mais velha dois anos), entrava primeiro na sala; aquele silêncio absoluto e, depois de certo tempo, ela saia com um lenço na boca, acompanhado de um olhar triste e quando eu falava com ela, não podia responder por conta da anestesia.  A minha mãe com um sorriso discreto e voz autoritária, dizia que era a minha vez de entrar, e ali, percebi que o ambiente era deveras desagradável. Fui sentada naquela cadeira cheia de mistérios ligados a experiências dolorosas que eu não estava nem um pouco receptiva para vivenciá-las. Com toda a minha rapidez de observação, analisei as minhas armas de defesas.  Começava o espetáculo: gritei, mordi o dedo da minha mãe, chutei a barriga do dentista e fugi da cadeira misteriosa, identificada como perigo à vista. Nos meus 6 para 7 anos, tinha uma força de não aceitar  o que me era imposto e desagradável; sendo os motivos explicados e com carinho, tudo acabava bem. Mas, não suportava mentiras, se me contassem alguma mentira para me convencer, era a certeza de que eu não seria uma cordeirinha obediente.

Depois de um mês fomos levadas para outro consultório de dentista e desta vez, a minha mãe, aconselhada por alguém, inventou uma história para me convencer. Ela não escutou a minha avó que dizia: fale a verdade para Suzete, diga com jeitinho e tudo ocorrerá bem. Eu, toda alegre, pensando que ia para o cinema e tomar sorvete depois do filme. O filme era o encontro com a tal cadeira e o dentista, e desta vez, foi traumático: fui anestesiada, mas  não deixei o dentista concluir o procedimento; fiz o meu espetáculo com chutes, gritos e fuga para a sala de espera, e lá, todas as crianças fizeram coro comigo no choro e na gritaria.

Noutro dia, pela manhã, a minha mãe querendo saber o motivo daquele meu comportamento, já que nunca tinha me comportado daquele jeito. Eu questionei as mentiras e voltei a querer saber qual a razão de aceitar ir para um lugar ruim daquele, ela disse que era para saúde e eu perguntei por que tem que sentir dor, para ficar com saúde nos meus dentes? Ela nada respondeu.

Meu irmão, (mais velho 8 anos), disse que ia me levar a uma dentista maravilhosa - ele tinha motivos bem específicos: queria namorar com a jovem dentista. Minha mãe disse: é melhor eu ir junto ou com sua irmã, pois Suzete pode manisfestar um comportamento desobediente e ele, muito confiante, disse que com ele seria diferente. Prometeu sorvete no final, mas não contou nenhuma mentira sobre o local. Fui sabendo que era dentista, mas não esperava sentir medo da tal cadeira “perigo” e aconteceu. Desta vez, a dentista bem calma, disse que não ia fazer nada e me liberou. Aconselhou uma professora dela e deu o endereço do seu consultório para meu irmão. Na despendida, eu com lágrimas perduradas nos olhos, lhe pedi desculpa, por me comportar mal, já que meu irmão queria namorar com ela, e todos ficaram rindo,  o meu irmão olhou para mim com censura. Pedi o sorvete, ele  negou e depois me levou para sorveteria perto do consultório. Quando estávamos lá, chegou a assistente da dentista com recado para meu irmão, ele todo animado, olhou para mim disse: quer mais sorvete ? Eu, de imediato, pedi outro de chocolate. 


Fui para dentista recomendada, com a minha mãe, e ela toda preocupada com o meu comportamento. Quanto entro no consultório, localizo a cadeira “perigo”, mas a dentista (uma senhora simpática), me chama para sentar no sofá, de costas para cadeira “perigo”. Pergunta-me se gosto de conversar, eu digo que sim. Ela, de forma muito gentil, me diz que eu sou uma menina linda, meiga e magrinha, e não consegue acreditar no que a minha mãe relatou sobre o meu comportamento. Com um jeito bem engraçado, ela me diz:”É exagero da mamãe, né?”. Eu lhe digo que é tudo verdade, fiz aquilo tudo mesmo. Ela me diz de forma mais engraçada ainda: ”Por acaso, quando você crescer será lutadora?”. Eu neguei com o gesto da cabeça. E, antes que ela me fizesse mais uma pergunta, afinal eu que gosto de perguntar, lhe disse que não gosto de mentiras e fui enganada sobre ir ao dentista. Ela olhou para mim, dizendo que apreciava muito  meninas que não gostavam de mentiras e que, como eu gostava de saber como tudo funcionava, ela responderia às minhas perguntas todas. Eu fiz todas as perguntas sobre cada coisa da cadeira “perigo” e depois me sentei sozinha e disse, podemos começar o tratamento. A dentista fez um acordo comigo: todo o instrumento que ela ia utilizar me dizia o nome e a função do mesmo, e também, qualquer dor que eu sentisse, apertava o seu braço e ela parava. Depois de horas com ela, sai de mãos dadas, e para surpresa da minha mãe, com o tratamento concluído. Ela deu os parabéns para minha mãe, pela filha educada, inteligente e corajosa. Minha mãe pegou a minha mão e deu um beijo na minha testa. E eu disse: A Doutora Lourdes falou para a senhora comprar sorvete para mim. Quero só de chocolate para a menina mais corajosa do mundo!... A minha mãe com aquela voz sorridente e autoritária: ’’A menina mais corajosa do mundo depois que tomar o sorvete, escova os dentes e vai sempre ao dentista quando precisar, certo?”. E respondi: “Claro que sim, já sei como tudo funciona, Mainha!” E perguntei: “O medo é quando a gente não conhece , se for explicado, melhora, porque a senhora não explica antes? Ela resmungando e caminhando, “Ah, Suzete!...”


método autoritário da minha mãe educar, sempre veio preenchido de amor e proteção; ela tinha um zelo de cuidar e uma sensibilidade intuitiva de sentir, por um filho, tudo o que se passava dentro dele. Muito antes da sua morte, ela conversou comigo e disse: "Minha filha, se eu tivesse mais instrução, tinha educado com mais carinho; imaginava que precisava ser durona para que cada um de vocês seguissem um caminho bom, e graça a deus, são todos formados e bem encaminhados na vida. Você, uma menina linda, sensível e uma inteligência! E com este nariz arrebitado de só fazer o que fosse explicado!...rss".  Respondi para ela que a sua educação dada a nós, seus filhos, era a melhor riqueza que tivemos e, com esta educação, sempre soubemos nos posicionar na vida e valorizar o amor,  nos gestos de gentileza, solidariedade e sensibilidade humana. Ainda disse: A senhora é a melhor mãe do mundo! Ela me abraçou e ficamos no silêncio, entre lágrimas!... 



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Alex Alemany.





quarta-feira, 15 de junho de 2016

A Chuva Eternizada no Abraço...






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Por volta dos meus 8 anos, morava perto da escola, quase um quilometro de distância da minha casa. Mesmo assim, a minha mãe me levava e ia buscar sempre. Neste período, eu estudava à tarde. Confesso que não gostava quando a minha mãe interrompia as minhas brincadeiras e ordenava que eu fosse tomar banho, para ir à escola; era quase uma morte das minhas horas de prazer, vestir aquele uniforme que todos vestíamos, achava uma monotonia e falta de colorido a perturbar a liberdade do meu imaginário e da minha individualidade.

A minha mãe era super protetora e autoritária, mas tinha uma presença mágica em cada detalhe, e com tantos talentos. A casa e tudo era cercado pelo seu gesto e suas construções femininas de bordados, pinturas. Tanto eu e quanto a minha irmã, éramos vestidas com roupas belíssimas, confeccionadas por ela. Eu sempre pedia para fazer a mesma roupa para minha boneca.

A minha mãe tinha fobia em relação ao barulho de trovão, era algo que a perturbava de forma sem controle, uma fobia mesmo! Todos da família sabiam que se chovesse muito com trovão, ela precisava de socorro. Ela ficava assustada e buscava abrigo; se estivesse em casa, ficava na cama debaixo de cobertas sobre a cabeça e quando passava o trovão, tudo normal.

Ela me deixou na escola, com um beijo rápido na cabeça e seguiu com o olhar a minha entrada na sala de aula. No meio da tarde começou a chover muito e de repente os trovões. Quando na saída, a Freira do colégio me avisou para esperar o meu irmão mais velho que vinha me buscar. Imediatamente me lembrei da minha mãe e não pensei duas vezes, saí correndo do colégio para minha casa, tomando um banho de chuva, com o pensamento fixo de salvá-la do medo do trovão, ela estava sozinha em casa e quem iria protegê-la?

Quando cheguei a nossa casa tudo fechado e eu a gritar por ela bastante tempo. A vizinha tinha levado-a para sua casa e me chamou. Entrei e fui para os braços da minha mãe, chorando e ela também, eu dizia soluçado que queria protegê-la do trovão, ela com uma toalha bem fofa me enxugando, dizendo que eu era muito corajosa, mas nunca mais fizesse isso, tinha que esperar um adulto para me buscar na escola. A vizinha se aproximou de mim e disse: “muito bonito este seu amor pela sua mãe!” e me deu um beijo na testa.

Noutro dia, fiquei em casa com gripe, por conta da chuva que levei, mas a minha mãe cuidando de mim e eu com status de super-herói, na cama brincando com as minhas bonecas e aconselhando a não andar na chuva sem capa.

Até hoje me lembro das cenas e o meu sentir de socorrer a minha mãe do medo e, quem sabe, isso não teria me levado à escolha da minha profissão de Psicóloga. A vida tem mistérios tão belos construídos num bordado de sentidos e significados.

Sempre que chovia com trovão, onde eu estivesse, telefonava para minha mãe, para saber dela. Após a ligação, eu me encontrava com a minha menina correndo na chuva e o nosso abraço. E, assim, a minha mãe, a minha menina e o nosso abraço moram sempre dentro de mim, com o lembrete do amor que cuida e abraça no grito de socorro!...



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Lauri Blank.



sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O Pequeno Aprendiz...












Estava eu na sala de espera da minha odontóloga aguardando a minha vez, uma espera sem ansiedade. Deixo as horas descansando, enquanto fico com os olhos viajando por mais um livro de Clarice Lispector; uma coleção de contos curtos a me dar sabor diferenciado dos demais, que esperam com um barulho de conversas, mastigando a seco aquelas horas lentas, rotineiras com destino a ficar sentados com a boca aberta na cadeira da dentista.

Somente me desligo dessa viagem das letras, um pouco antes de ser a próxima no trono da dentista. Quando lá chego, uso o meu recurso de meditação para relaxar na adversidade extrema. Afinal, com a boca aberta, ficamos totalmente disponíveis, e numa concordância exemplar. Confesso que não tenho nenhuma predisposição para a passividade, neste momento me restando encontrar em mim a pacificação meditativa. Sempre faço uma checagem no meu corpo, corrigindo as tensões; se os meus pés estiverem esticados, relaxo; se os braços estiverem segurando a cadeira, deixo-os caírem acompanhando o relaxamento de todo corpo. Aquele sonzinho da broca nhen nhen  nhen, transformo no som do mar (sempre será a minha bela paisagem na cabeça) e fico boiando com o corpo relaxado... Procuro boiar no mar calmo sem ondas, basta de agitação!...

Hoje teve uma novidade neste cenário de espera: um menininho de três anos de idade, um viajante, um andarilho pelo corredor a examinar tudo com muita sede de apreender o mundo à sua volta. Uma bolsa depositada numa cadeira era um objeto de estudo muito interessante, primeiro a forma, depois a cor e, por último, como uma caixa que pode ser aberta e com muitas outras coisas novas. Afinal bolsa de mulher tem tudo dentro, se calhar, cabe até um gato no seu mais respeitado sono... Ele era sempre interrompido pela jovem mãe, que dizia: não, Bernardo!

Aquele pequeno aprendiz me envolveu de uma forma encantadora. E começamos o nosso diálogo; primeiro com o olhar, depois uma troca de sorriso e, finalmente, a escuta da minha voz pronunciando o seu nome. No momento em que ele, disparado correndo na aventura de ser livre, a sua mãe gritava ordenando  para voltar em sua direção. Quando pronunciei o seu nome, ele parou, me olhou. Completei a frase: A mamãe está chamando e apontei na direção dela. Ele balançou a cabeça e foi ser abraçado pela doçura da mãe. Em outro momento se aproximou de mim, bem pertinho. Fiz carinho nos seus cabelos e alguns instantes estabelecemos um reconhecimento de dois aprendizes da vida em movimento... Eu disse para sua mãe que criança saudável tem curiosidade sobre a vida, tudo é novidade que entra pelos olhos a serem tocados. Ela, com um sorriso, concordou e agradeceu. Pensei em agradecer ao Bernardo por permitir a minha participação na celebração dele com a vida, mas me lembrei de que as palavras aqui são desnecessárias.

Antes de entrar na sala da dentista, dei meu adeus e beijinhos soprados, ao que ele correspondeu. Fui para o meu mar (imaginário) e ele, com a vida inaugural...





Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)


Imagem: Obra de Chelin Sanjuar.