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terça-feira, 22 de novembro de 2016

Grandes Poemas Que Eu Adoro!...




Paisagem pelo telefone



Sempre que no telefone 
me falavas, eu diria 
que falavas de uma sala 
toda de luz invadida,
sala que pelas janelas, 
duzentas, se oferecia 
a alguma manhã de praia, 
mais manhã porque marinha,
a alguma manhã de praia 
no prumo do meio-dia, 
meio-dia mineral 
de uma praia nordestina,
Nordeste de Pernambuco, 
onde as manhãs são mais limpas, 
Pernambuco do Recife, 
de Piedade, de Olinda,
sempre povoado de velas, 
brancas, ao sol estendidas, 
de jangadas, que são velas 
mais brancas porque salinas,
que, como muros caiados 
possuem luz intestina, 
pois não é o sol quem as veste 
e tampouco as ilumina,
mais bem, somente as desveste 
de toda sombra ou neblina, 
deixando que livres brilhem 
os cristais que dentro tinham. 

Pois, assim, no telefone 
tua voz me parecia 
como se de tal manhã 
estivesses envolvida,
fresca e clara, como se 
telefonasses despida, 
ou, se vestida, somente 
de roupa de banho, mínima,
e que por mínima, pouco 
de tua luz própria tira, 
e até mais, quando falavas 
no telefone, eu diria 

que estavas de todo nua, 
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais clara
pois a água nada embacia,
sim, como o sol sobre a cal 
seis estrofes mais acima, 
a água clara não te acende: 
libera a luz que já tinhas.


Autor: João Cabral de Melo Neto.

João Cabral de Melo Neto: (Recife, 9 de janeiro de 1920 - Rio de Janeiro, 9
de outubro de 1999). Além de grande poeta, foi um diplomata brasileiro.
Pertenceu a geração de 45, terceira geração do modernismo.
Ao longo da sua trajetória de poeta escritor foi merecidamente agraciado com
diversos prêmios e honras literárias.
Foi membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Pernambucana
de letras. A sua poesia tinha como estrutura linguística, estética e formal na
base racional e num trabalho constante de aperfeiçoamento. O poeta era
avesso ao sentimentalismo e a inspiração. Neste aspecto da inspiração eu
discordo, para mim, a poesia inspirada tem um encantamento único.