terça-feira, 30 de agosto de 2016

A Cópia - O Destino da Sombra -


       
     

              A Cópia - O Destino da Sombra -


                 


           
                                                  Formas


                                      a sombra que escurece

                                                 com os teus passos

                                                                     ligeiros

                                                             correndo pela

                                     curiosidade vazia

                                                silenciosamente

                                                                    morta

                                    num mero engano

                                                        do nada.



                                 Presentificando

                                             o fantasma

                                                 na espreita

                               do roubo

                                                das idéias.



                             Sombra

                              sempre será o teu destino

                                        esquecida

                                        num traço

                                                ultrapassado

                             pela mediocridade

                                               da cópia.



                         Quando de repente

                                 quiseres sentir o que te move

                                  encontrarás o eco da tua

                                                                    alma criadora

                                                         em luz

                                                                   presença única.

                       E os dias de sombra

                               ficarão no passado

                                                      quando desconhecias

                                                                 a inspiração.



                                "Ah, milhares de pessoas não tem coragem

                                  de pelo menos prolongar-se e um pouco mais

                                  nessa coisa desconhecida que é sentir-se,

                                  e preferem a mediocridade."  Clarice Lispector.



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem Foto de Celso Rubens Vieira e Silva.

Partilha: O valor do original (O autor) tem uma legitimidade que nenhuma
cópia (sombra) alcançará. 
Na singularidade, encontra-se a riqueza da multiplicidade da arte.
  
Poema Julho de 2013.



                                                   





terça-feira, 23 de agosto de 2016

O Rei da Sorbonne










A professora da cadeira de Teorias da Personalidade seria substituída por um amigo professor com Doutorado na Sorbonne. Ele iria ministrar as aulas durante o período de uma cirurgia e repouso a que a referida professora teria que cumprir, por recomendação médica. Ele (o professor), embora nascido no Recife, estava voltando de Paris para um período de seis meses e, por questão de currículo, contratado pela faculdade durante esse tempo. Desnecessário se faz dizer o quanto havia de devoção por parte da diretoria da faculdade, por conta do título que ele fazia questão de exibir.

No primeiro dia de aula, ele se apresenta com uma roupa formal de grife francesa, mais um belo casaco também francês, de outra grife famosa (o detalhe importante é que o nosso clima é sempre quente), colocou o casaco vestindo a cadeira, com a etiqueta da grife virada para nós, uma turma de 45 alunos, 44 mulheres e um único homem. Depois num discurso descritivo sobre o seu currículo e eu, ao perceber a sua vaidade espumando, sua arrogância de nos comunicar que teríamos a oportunidade de assistir as aulas de um Doutor em Psicologia com a especialização em Teoria da personalidade. No meio do seu afetado discurso, fazia questão de inserir palavras do idioma francês.

Assim seguia todas as aulas: o casaco vestindo a cadeira com a etiqueta à mostra e o esnobismo do Doutor, na tentativa de humilhar a nossa turma. Olhei para minha amiga Mary que, ao observar e decodificar minha inquietude, disse: “Su, não vale a pena, ele com certeza irá te perseguir e prejudicar. não vale apena amiga!”,  e eu concordei com a sensatez da minha amiga; o meu silêncio prevaleceu  com término da aula de exibição do Doutor.  Nunca invente de interromper esse Rei da Sorbonne, confiante em se auto afirmar na sua autoridade especial, afinal ele já é quase um “francês”, não mais um nordestino do terceiro mundo – disse a minha Amiga Mary, no caminho de casa...

Houve um dia em que Mary faltou à aula e eu, a contar e recontar internamente, para não reagir àquela estupidez egoica e habitual do Rei da Sorbonne... Ele a dizer que tinha autoridade e permissão da professora legitima da cadeira, para reprovar qualquer aluno que não correspondesse ao seu “padrão de exigência”, e, numa ameaça sarcástica, disse que a nossa turma estava no nível abaixo das suas expectativas e questionou quem poderia da turma responder o que era o arquétipo? Daí eu levantei a mão para responder o que era um arquétipo?  Ele me olhou espantado e, ainda sarcástico, disse: - “Será que você poderá me dar a resposta certa, já que esta turma até agora, não manifestou nem uma competência, sobre os assuntos brilhantemente abordados por mim?” Eu perguntei se poderia exemplificar um arquétipo. Ele me disse: - “Se você conseguir dar um exemplo correto é melhor do que o conceito”. Foi quando eu lhe respondi: - O senhor é um perfeito arquétipo de professor! Ele, a me olhar irritado e a repetir o que foi que você disse?  - Professor, como pode o senhor com toda a bagagem acadêmica da Sorbonne e não compreendendo a minha exemplificação do conceito arquétipo? A turma toda desabou numa gargalhada... Ele finalizou a aula e olhou para mim, por favor: quero falar com a senhorita – disse raivoso. Como já conhecia aquele olhar de professor, sedento de me perseguir, entendi a falta de Mary naquele momento, a sensatez dela me fez falta...

Depois que todos da turma haviam saído, ele olhou nos meus olhos e disse: -“Você brincou com fogo, mocinha!” E eu prontamente disse-lhe: - Não gosto de brincar com fogo, Doutor, eu pulo o fogo, como se fosse um obstáculo. “Suzete Brainer! Eu vou complicar a sua vida, terei o prazer de reprová-la!” Ao que eu prontamente perguntei: - Doutor professor, o senhor está me coagindo e constituindo, com seu ato covarde, uma ameaça de abuso de poder, sem nenhuma testemunha e achando que eu vou ficar morrendo de medo; facilitar para que o senhor injustamente me prejudique por lhe responder corretamente a sua pergunta na sala de aula? Ele, a me encarar com uma autoridade tão grande, que a sua baixa altura, magicamente tinha aumentado alguns centímetros (o que um Ego não faz?): - “Não vou esquecer que a senhorita fez uma turma toda gargalhar de mim, se prepare que você será reprovada!” No tom bem calmo, eu prontamente lhe respondi: - A manifestação da turma chama-se catarse, professor. Estes três meses aguentando o senhor a fazer piadinhas, desqualificando uma turma inteira, a mostrar o excesso de importância que o senhor pensa que tem, aconteceu o momento da catarse. Doutor professor fique o senhor sabendo que eu também não vou aceitar fácil esta sua vingança. Diferentemente dos alunos a quem o senhor tem ensinado, irei lutar por meus direitos legítimos de aluna ameaçada, meus direitos legais. Sai da sala sem olhar para trás e com a certeza de uma luta renhida e muito chata a enfrentar pela frente. O que está feito, está feito – pensei. O que me restava agora era buscar meios corretos de não ser prejudicada pelo Rei da Sorbonne.

No dia da prova ele fez uma surpresa para a turma toda. A prova seria individual, (algo totalmente contrário ao de costume da professora da cadeira, que sempre realizava a prova em dupla). Mary olhou para mim, sabendo que o vingativo professor planejava. Com este modo individual, ele poderia executar o seu plano de me colocar para a prova final, e assim, poder me reprovar concretamente.

Na aula seguinte, ele devolveu as provas com as notas e – claro - me colocou uma média em que eu estaria para prova final. Quando vi a prova, prontamente comuniquei à turma que o Doutor Professor tinha um plano de vingança para me reprovar, que após aquela catarse de gargalhada da turma, provocada por mim, ele teria me ameaçado com a vingança da reprovação. Ele ficou surpreso com a minha coragem de comunicar a turma, e contra-argumentou que avaliação era a subjetividade do mestre da cadeira e nada disso constituía uma vingança. Foi quando ele conheceu o Leo (único homem da turma), com a sua ironia cortante, levantou-se e disse: “Lamento muito de não ter vivenciado a catarse da gargalhada, quando estou presente na sua aula, ela tem um propósito muito nobre: o de me fazer dormir depois da minha farra da noite anterior. O senhor reprovar a Suzete Brainer é um ato de uma burrice, que deixa a evidência que o senhor comete o crime de abuso de poder e vingança. Isto será de conhecimento de todos.” O professor com muita ironia diz para o Leo: - “Não adianta a sua defesa de paixão por Suzete; eu sou única autoridade para decidir sobre avaliação das provas dos alunos”. O Leo, muito irônico, mestre  em desconcertar qualquer um que lhe provocasse, diz: “Professor, vou lhe dar outro exemplo de arquétipo, eu sou homossexual assumido, o arquétipo do único homem que cursa Psicologia numa turma de mulheres, uma bichona, professor (faz os trejeitos com as mãos), e, por isso, não posso ser apaixonado por Suzete, mas eu a admiro muito, tanto que vou deixar que o senhor direcione a sua vingança para mim. O senhor me reprova e a sua reprovação será adequada, pois eu nunca tiro notas excelentes, assim, ninguém suspeitará do senhor pela minha  reprovação!” A turma toda a gargalhar  e o Leo adorando aquele espetáculo acabando a aula do Rei da Sorbonne, que foi embora com tanta raiva que esqueceu o seu troféu: o casaco na cadeira pela a primeira vez. Eu abraço o Leo e digo que ele quer colecionar reprovações, que ele precisa encontrar um curso que a leve a sério.  Ele olha para mim, me diz baixinho: - “No dia que eu me levar a sério, eu morro, enquanto isso, eu faço alguma coisa boa para pessoas sérias como tu, Su!” Eu emocionada, não digo mais nada...

No outro dia eu vou à coordenação de apoio ao estudante, a qual, nunca teve nenhuma queixa formal contra nenhum professor. Aquele departamento atuava noutras funções e não na função específica que a ele era designada. A Célia, coordenadora muito querida dos alunos e dos professores,  sempre encontrava o bom caminho de dissolver conflitos; na maioria dos casos com prejuízos para os alunos. Quando, ela me escuta a querer fazer um registro de queixa do professor Sorbonne, fica apavorada. Tenta de todas as formas a me convencer de não realizar o registro, situação impossível de acontecer, pois eu estava totalmente decidida. A minha discussão foi com a minha amiga Mary, que quis ser testemunha e levar a prova dela como elemento de comparação, a fim de evidenciar  que a minha prova era melhor que a dela e ela estava com nota bem melhor e já aprovada por média. Célia olha a prova de Mary, constata a má-fé do professor na avaliação, mesmo assim eu não queria que a Mary se envolvesse, mas ela argumentou com toda razão, que já estava aprovada e que a prova dela serviria como elemento fundamental de comparação com a minha, a fim de que os avaliadores percebessem o erro do professor.

No dia marcado da prova final, para nossa surpresa ele diz que a prova será em dupla.  Antes da prova ele me pediu para retirar a queixa, dizendo que aquela ameaça teria sido uma brincadeira dele. Eu lhe disse que levava muito a sério as brincadeiras e por isso não ia retirar. Eu pergunto ao professor se posso fazer a prova individual, pois não queria levar ninguém junto comigo a reprovação. Vânia, que sempre foi uma inteligência superdotada, manifestou a vontade de fazer a prova comigo - uma oportunidade única - pois sempre fiz provas em dupla com a Mary e nunca fomos para a final. Eu fiquei relutante em aceitar, mas ela insistiu muito e fizemos uma excelente prova. Ela me disse que tinha feito à prova anterior péssima, pois tinha ficado com resistência à afetação do professor e não tinha estudado o assunto, mas agora estava preparada e tinha ficado indignada com atitude do Rei da Sorbonne comigo, na avaliação da minha prova.

Ele corrigiu as provas na hora e único dez foi dado à nossa prova.  Não reprovou ninguém, a não ser o Leo que não compareceu à prova. Antes da minha saída da sala, ele me declarou: - “Suzete Brainer, você tem competência e mereceu a nota máxima com a Vânia Bastos, parabéns para as duas!”. E minhas últimas palavras para ele: - Professor a competência é muito maior que resultados, notas e títulos; a competência é nunca perder a ética para se avaliar  imparcialmente as pessoas; não me conformo com o abuso de poder de supostas autoridades em qualquer setor, a cometer injustiças por questões egoicas. Agora irei retirar a queixa, para que seu currículo continue perfeito. Espero sinceramente que o senhor se torne mais humano e menos astro!

No corredor à minha espera estava Mary e Nara (que cursava na outra turma) e, distante, numa cadeira, o Leo no maior sono.

Dedico esta crônica à amizade; àqueles amigos queridos que o tempo e as vicissitudes da vida faz questão de separar, mesmo sendo - como foi - tão bom estarmos juntos. De todos, só a Narinha que me visita neste blog. Aos outros que ficaram na minha memória afetiva, como símbolo de solidariedade tão humana, na dimensão mais sublime que uma amizade pode alcançar, eu desejo uma Paz Profunda e muitas Felicidades, sempre!



Suzete Brainer  (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Matisse.




quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Raízes do Silêncio









Ela com as mãos carregava as pedras do caminho, enquanto a mente se esvaziava de algum lixo implantado. A sua respiração completa sem corda bamba equilibrava os dias no meio fio das ruas distantes da sua casa.

Procurava olhar o céu junto com a terra à espera do mar, que sempre transforma os elétrons da vertigem dos enganos.

Ela deixava as nuanças das cores da vida no seu coração de criança, que sempre dava corda no seu relógio de pulsações.

Cada instante é uma nova vida com uma palavra nascida no poema vazio.

Ela possuía nas mãos o vazio que cresceu do poema, e plantou uma roseira das raízes do seu silêncio.





Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Daniel Gerhartz.


terça-feira, 16 de agosto de 2016

Bordados de Gestos Infinitos...










O teu olhar passeia pelo o meu corpo
vestido de alma,
a tua sede atemporal registrada na
memória da minha pele,
semeia o destino da fusão
do desejo e da ternura,
a crescer em nossa história.

A tua mão no meu cabelo,
deslizando na minha nuca,
ao encontro do nosso desejo
tão único,
preso na voz sem silêncio...

A velocidade da luz corre
na trilha de um belo
bordado de gestos,
a minha boca tua,
sempre
encontra em ti
a minha vida nascida e renascida
de infinitos instantes!




Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem : Obra de Daniel Gerhartz.





quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Rosas no Caminho












Rosas no coração com alma nua.
A vida sempre no gesto amplo
Do acolhimento.

Rosas nas mãos
Para os dias claros
Sem sombras nos olhos abertos.

Rosas no caminho
Bem perto do mar
Caminhando por dentro dos ventos de agosto.

Rosas dentro do meu olhar
Que seguem a rota
Na limpidez do pensamento
Ao teu encontro,
Muito além na linha do tempo
Da tua vida...


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)
Imagem: Obra de Vladimir Vologov.

Dedico este poema à minha sobrinha e afilhada
Clara Lobo Brainer.

Cla,

Desejo sempre rosas no teu caminho, minha querida.
Amo-te muito,
Beijinhos.






                     





terça-feira, 9 de agosto de 2016

Grandes Poemas Que Eu Adoro!





          Êxtase

    
       Deixa-te estar embalado no mar noturno
         onde se apaga e acende a salvação.


         Deixa-te estar na exalação do sonho sem forma:
         em redor do horizonte, vigiam meus braços
                                                                        [abertos,
         e por cima do céu estão pregados meus olhos,
                                                                  [guardando-te.


        Deixa-te balançar  entre a vida e a morte, sem
                                                    [nenhuma saudade.
        Deslizam os planetas, na abundância do tempo
                                                                          [que cai.
        Nós somos um tênue pólen dos mundos...


        Deixa-te estar neste embalo de água gerando
                                                                    [círculos.


        Nem é preciso dormir, para a imaginação
                [desmanchar-se em figuras ambíguas.


        Nem é preciso fazer nada, para se estar na alma
                                                                           [de tudo.

  
       Nem é preciso querer mais, que vem de nós um
                                                                    [beijo eterno
       e afoga a boca da vontade e os seus pedidos...



     Autora: Cecília Meireles.


    Livro: Viagem - Editora Global.


    Cecília Meireles: Nasceu em 7 de novembro de 1901 no
                                  Rio de Janeiro e faleceu a 9 de novembro
                                  de 1964 no Rio de Janeiro.
                                  Tem um trecho de poema dela que a defini
                                  muito bem: "Não sou alegre
                                                         Nem sou triste
                                                         Sou poeta" 
                                  A maior Poeta brasileira, uma mestra
                                  na excelência das palavras, na inspiração
                                  e na belíssima e original imagética inscritas
                                  no seu caminho próprio, o caminho                                                    luminoso da estrela Cecília Meireles!



                             

                         


               
                   

terça-feira, 2 de agosto de 2016

O Canto da Vida...












Ela caminhou, caminhou pelo seu espaço aberto de certezas, tão suas, que tocava uma a uma, no reconhecimento da sua história. A sua memória de caixa azul, na qual todas as borboletas do seu céu da boca voavam nas manhãs ao redor do sol.

O silêncio que lhe acompanhava, tocava para as borboletas se sentirem livres dos ruídos urbanos; esperava a paz vesti-la numa suave valsa de sentidos que sempre lhe pertenceram.

Ela sabia que cada dia é como folha a ser vestida no calor da emoção, mas o raciocínio claro como uma faca a fez cortar o pessimismo intruso e deixar as mãos dançarinas nos gestos do amor.

Foi quando ela desnudou todo o seu pensamento e constatou a vida dentro dela, que canta a alegria, numa dose equilibrada de sossego!



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Daniel Gerhartz



Quero neste momento agradecer a todos meus 
amigos de partilha literária que gentilmente
dedicaram um tempo para ler, sentir e
comentar aqui.
Por hora, o meu blog ficará no modo somente
para leitura e quem sabe em outro momento 
eu voltarei para partilha do voo dos
comentários aqui e nos espaços de todos.
Grata a todos!
Beijo e Abraço de Paz...

Suzete Brainer.



domingo, 31 de julho de 2016

Ventos de Agosto












Ventos de agosto,

este som com a canção

do dia que permanece noite, 

preenchendo 

os labirintos da minha alma.


Sinto-te como uma flauta doce,

percorrendo memórias,

acordando fantasmas silenciosos

para uma dança regida

pelo vento libertador,

        registrado pela lua

       refletida de mar...


Ventos de agosto,

que me suspende

de ar renovado

      de sonhos.



Poema de Agosto de 2014. 



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados).

Imagem: Obra de Lídia Wylangowska.










terça-feira, 26 de julho de 2016

Breve Ensaio Sobre o Amor












Palavra muda
Leve
Sem asa para o voo
Recolhida e semeada na entrada do olhar
Faz-se curva
Na montanha dos sentimentos expostos
Cristalizados em ondas luminosas
Atingindo o cume
Quase eterno.

No imprescindível palato
O sabor da ternura na espessura do desejo
A bailar sobre a pele da alma
O sol escondido
Um fogo como navalha
No corte do supérfluo
Foca este brilho
Nas bocas mudas
Que dizem tudo
Irresistivelmente
Inconfundivelmente
Irrecusavelmente
Sobre o amor!



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Lidia Wylangowska.





quarta-feira, 20 de julho de 2016

Passos de Elefante













Deixa-me caminhar

A passos largos pela mata,

Com a força da minha sobrevivência,

Antes que a violência do homem me alcance.


Deixa-me caminhar.

Eu conheço esta terra,

Mas nada sei do homem que a invade.


Deixa-me caminhar

Com passos largos de elefante,

Memorizar a trilha dos meus dias

De legitima liberdade.





Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Foto do genial Sebastião Salgado.


Partilha: A caça criminosa dos elefantes  continua,
                a maldade do homem e sua cobiça as suas
                presas de marfim...



sábado, 16 de julho de 2016

Todo Poeta Vive do Silêncio











Os meus olhos fechados em música
Guardam todas as pausas,
Na espera do silêncio.

Todo poeta vive do silêncio
E dele pesca as palavras!...

Todo o movimento do mar
Passeia por dentro de mim,
No eterno arrumar e desarrumar
Os meus percursos fora.

Do silêncio sempre renascem
As minhas raízes. 
Colho palavras com sede
De liberdade,
Que delicadamente
Ressuscita o sopro da vida.




Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Lauri Blank.








Aviso: Uma breve pausa e volto logo
           para voo da partilha que tanto
           aprecio!
           Beijo e Abraço de Paz...

terça-feira, 12 de julho de 2016

Grandes Poemas Que Eu Adoro!







As Andorinhas


 As andorinhas, ah, as andorinhas:
 Nunca mais
                  que pude vê-las,
                                 aos golpes de asa,
 recolhendo as tardes
                  e armando as noites
- distendendo os fios
                  que unem o escuro
                                entre pontos
 tão claros
                  do infinito.



Autor: Audálio Alves.




Livro: O Dia Amanhece Em Minhas Mãos
               - cantos em suspensão -

Audálio Alves: Jornalista, Advogado e Poeta,
                         nasceu a 2 de Junho 1930 no
                         município de Pesqueira,
                         interior de Pernambuco.
                         Faleceu no Recife a 08/04/1999.


                    



  
                                      
                       





quinta-feira, 7 de julho de 2016

A Senda






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As palavras tem a leveza
Das asas do meu pensamento
Num voo de liberdade!

Plano pelo mar
Na rota do sol do meio dia.
Todas as minhas ideias são
Aquecidas de luz própria...

No espaço entre as ideias,
Nada se repete dentro de mim,
O meu eco é um grande
Vazio de paz.

E vou sobrando na minha paz
Sem bandeiras.
A minha diminuta importância
Clarifica o meu caminho:
A senda que acende
O que Eu Sou.





Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Andrew Astroshenko.



sábado, 2 de julho de 2016

Introspecção












Colho rosas na entrada
Dos meus olhos à noite.
A minha alma sem sombra
Adormece nas palavras de paz.

Pela manhã recolho o meu silêncio  
Dos sonhos guardados,
Feitos dos bordados dos meus desejos.

E com um pulo, com os pés no chão,
A minha consciência na mão
Rege as horas do dia.




Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Richard S. Johnson.











domingo, 26 de junho de 2016

O Vento Música












Ela passeava pelos campos de margarida. Longe, o sol se despedindo com o brilho de quem ama, assentou nos seus cabelos, cristalizando o dourado em subtons de paixão e desejo de entrega.
  
Ela rodopiou nua por dentro, esta nudez  libertadora, com a pureza de pensamentos; surgindo, nascendo e crescendo na onda de amor que não se cala. Até o silêncio é música sem escala, que se fez vento à noite, no qual todas as janelas se abrem para sua imensidão.

Ela aprecia o vento lhe envolvendo e, sem voz e sem pensamento, deixa ele ser seu dono...



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Lauri Blank










sexta-feira, 24 de junho de 2016

A Menina que Gostava de Perguntar, Mas Não Gostava de Mentiras.












Estou eu aqui novamente voltando para a minha infância, mas coleciono algumas histórias boas de serem contadas, talvez não escreva tão bem como as tenho guardadas na minha caixa de histórias. Esta caixa foi presenteada pela minha avó. Quem teve uma avó contadora de histórias, fica com os olhos a brilhar na luz da imaginação...

A minha avó tem muita responsabilidade pela minha alegria de criança e também por sempre gostar de saber como tudo funcionava, antes de escurecer as repostas, sempre tinha as  perguntas que não calavam o final sem propósito.

Qualquer experiência nova ou lugar novo, sempre vinha com as minhas perguntas, para desagrado dos adultos que não gostavam de responder e nem de pensar.

Assim começou a tragicomédia das minhas idas aos dentistas. Minha mãe levando a mim e minha irmã, sem nada dizer para quê e o que fazer lá. A minha irmã (mais velha dois anos), entrava primeiro na sala; aquele silêncio absoluto e, depois de certo tempo, ela saia com um lenço na boca, acompanhado de um olhar triste e quando eu falava com ela, não podia responder por conta da anestesia.  A minha mãe com um sorriso discreto e voz autoritária, dizia que era a minha vez de entrar, e ali, percebi que o ambiente era deveras desagradável. Fui sentada naquela cadeira cheia de mistérios ligados a experiências dolorosas que eu não estava nem um pouco receptiva para vivenciá-las. Com toda a minha rapidez de observação, analisei as minhas armas de defesas.  Começava o espetáculo: gritei, mordi o dedo da minha mãe, chutei a barriga do dentista e fugi da cadeira misteriosa, identificada como perigo à vista. Nos meus 6 para 7 anos, tinha uma força de não aceitar  o que me era imposto e desagradável; sendo os motivos explicados e com carinho, tudo acabava bem. Mas, não suportava mentiras, se me contassem alguma mentira para me convencer, era a certeza de que eu não seria uma cordeirinha obediente.

Depois de um mês fomos levadas para outro consultório de dentista e desta vez, a minha mãe, aconselhada por alguém, inventou uma história para me convencer. Ela não escutou a minha avó que dizia: fale a verdade para Suzete, diga com jeitinho e tudo ocorrerá bem. Eu, toda alegre, pensando que ia para o cinema e tomar sorvete depois do filme. O filme era o encontro com a tal cadeira e o dentista, e desta vez, foi traumático: fui anestesiada, mas  não deixei o dentista concluir o procedimento; fiz o meu espetáculo com chutes, gritos e fuga para a sala de espera, e lá, todas as crianças fizeram coro comigo no choro e na gritaria.

Noutro dia, pela manhã, a minha mãe querendo saber o motivo daquele meu comportamento, já que nunca tinha me comportado daquele jeito. Eu questionei as mentiras e voltei a querer saber qual a razão de aceitar ir para um lugar ruim daquele, ela disse que era para saúde e eu perguntei por que tem que sentir dor, para ficar com saúde nos meus dentes? Ela nada respondeu.

Meu irmão, (mais velho 8 anos), disse que ia me levar a uma dentista maravilhosa - ele tinha motivos bem específicos: queria namorar com a jovem dentista. Minha mãe disse: é melhor eu ir junto ou com sua irmã, pois Suzete pode manisfestar um comportamento desobediente e ele, muito confiante, disse que com ele seria diferente. Prometeu sorvete no final, mas não contou nenhuma mentira sobre o local. Fui sabendo que era dentista, mas não esperava sentir medo da tal cadeira “perigo” e aconteceu. Desta vez, a dentista bem calma, disse que não ia fazer nada e me liberou. Aconselhou uma professora dela e deu o endereço do seu consultório para meu irmão. Na despendida, eu com lágrimas perduradas nos olhos, lhe pedi desculpa, por me comportar mal, já que meu irmão queria namorar com ela, e todos ficaram rindo,  o meu irmão olhou para mim com censura. Pedi o sorvete, ele  negou e depois me levou para sorveteria perto do consultório. Quando estávamos lá, chegou a assistente da dentista com recado para meu irmão, ele todo animado, olhou para mim disse: quer mais sorvete ? Eu, de imediato, pedi outro de chocolate. 


Fui para dentista recomendada, com a minha mãe, e ela toda preocupada com o meu comportamento. Quanto entro no consultório, localizo a cadeira “perigo”, mas a dentista (uma senhora simpática), me chama para sentar no sofá, de costas para cadeira “perigo”. Pergunta-me se gosto de conversar, eu digo que sim. Ela, de forma muito gentil, me diz que eu sou uma menina linda, meiga e magrinha, e não consegue acreditar no que a minha mãe relatou sobre o meu comportamento. Com um jeito bem engraçado, ela me diz:”É exagero da mamãe, né?”. Eu lhe digo que é tudo verdade, fiz aquilo tudo mesmo. Ela me diz de forma mais engraçada ainda: ”Por acaso, quando você crescer será lutadora?”. Eu neguei com o gesto da cabeça. E, antes que ela me fizesse mais uma pergunta, afinal eu que gosto de perguntar, lhe disse que não gosto de mentiras e fui enganada sobre ir ao dentista. Ela olhou para mim, dizendo que apreciava muito  meninas que não gostavam de mentiras e que, como eu gostava de saber como tudo funcionava, ela responderia às minhas perguntas todas. Eu fiz todas as perguntas sobre cada coisa da cadeira “perigo” e depois me sentei sozinha e disse, podemos começar o tratamento. A dentista fez um acordo comigo: todo o instrumento que ela ia utilizar me dizia o nome e a função do mesmo, e também, qualquer dor que eu sentisse, apertava o seu braço e ela parava. Depois de horas com ela, sai de mãos dadas, e para surpresa da minha mãe, com o tratamento concluído. Ela deu os parabéns para minha mãe, pela filha educada, inteligente e corajosa. Minha mãe pegou a minha mão e deu um beijo na minha testa. E eu disse: A Doutora Lourdes falou para a senhora comprar sorvete para mim. Quero só de chocolate para a menina mais corajosa do mundo!... A minha mãe com aquela voz sorridente e autoritária: ’’A menina mais corajosa do mundo depois que tomar o sorvete, escova os dentes e vai sempre ao dentista quando precisar, certo?”. E respondi: “Claro que sim, já sei como tudo funciona, Mainha!” E perguntei: “O medo é quando a gente não conhece , se for explicado, melhora, porque a senhora não explica antes? Ela resmungando e caminhando, “Ah, Suzete!...”


método autoritário da minha mãe educar, sempre veio preenchido de amor e proteção; ela tinha um zelo de cuidar e uma sensibilidade intuitiva de sentir, por um filho, tudo o que se passava dentro dele. Muito antes da sua morte, ela conversou comigo e disse: "Minha filha, se eu tivesse mais instrução, tinha educado com mais carinho; imaginava que precisava ser durona para que cada um de vocês seguissem um caminho bom, e graça a deus, são todos formados e bem encaminhados na vida. Você, uma menina linda, sensível e uma inteligência! E com este nariz arrebitado de só fazer o que fosse explicado!...rss".  Respondi para ela que a sua educação dada a nós, seus filhos, era a melhor riqueza que tivemos e, com esta educação, sempre soubemos nos posicionar na vida e valorizar o amor,  nos gestos de gentileza, solidariedade e sensibilidade humana. Ainda disse: A senhora é a melhor mãe do mundo! Ela me abraçou e ficamos no silêncio, entre lágrimas!... 



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Alex Alemany.