domingo, 30 de outubro de 2016

A Viagem da Pele...












Na viagem da minha pele
pequenas luminosidades
acendem a tua voz
na transcendência  das horas.

Da minha pele o sentir
extrapola  para a alma
a construir música
de sopros
percorrendo em nós
o infinito.

Tu dizes que o sol
dos meus cabelos
te abraça
a desenhar na tua pele
a trilha dos voos
que nos libertam.







Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem : Obra de Vladimir Vologov.





         

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Sopro Essencial de Alma





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Arrumou a mala e partiu na primeira luz da lua e não sentiu os pés no chão. As palavras, todas em fila, fizeram poeira na estrada sem caminho.

A sensação do desapego lhe colocou o sopro de liberdade, inalado, quando os seus cabelos voavam no vento, prateados, nascidos da lua.

Ela entendeu que a respiração é sagrada, vestida de paz.

Num elo simples com a lua, respirou esta paz bem devagar, tudo mudou de tamanho. Sentiu a vida brotando nas partículas do silêncio, apreciando a dança sem plateia. Com a certeza absoluta que o silêncio é a sua melhor música, arrumando todos os seus pontos de sensibilidades, liberados neste sopro essencial de alma.



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Richard S. Johnson.



sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Poesia com Asas...




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Água gelada, quase uma pedra de gelo. Ela mergulhou na piscina, os pensamentos foram congelando e, no seu silêncio profundo, a paz meditativa lhe abraçou. A natação, a meditação e o frio dissolvendo o dia cansativo. Ela quis ir embora naquelas horas de desintegração da realidade.

Ficou na sua melhor casa... Nua dentro de si.

Quando um casal de Bem-te-vi pousa na escada da piscina, bem perto dos seus olhos, o encanto lhe acionou o silêncio da contemplação, ficou imóvel, quase sem respirar para aquela mágica partilha. Percebeu, entre lágrimas, o quanto os pássaros são belos, sublimes e etéreos...

O silêncio foi transformado em música, o canto do casal de Bem-te-vis, promoveu a beleza daqueles minutos premiados pela magia rara deste contato.

Ela resolveu guardar este momento na sua melhor casa: a poesia; uma poesia com asas de sublimidade. Quando voaram, ela teve a certeza que também voo.



Suzete Brainer  (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Lídia Wylangowska.


Aviso: Um voo para pausa, depois outro voo
             de volta aqui, para partilha que tanto
             aprecio!...

             Beijo e Abraço de Paz!

            Suzete Brainer.


quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Digo Não ao Chip Humano!





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Em breve poderemos, com esta tecnologia “avançada” e invasiva, nos ser implantado um chip com todos nossos dados e seremos previsíveis quanto à nossa localidade. Ninguém se perderá numa floresta e provavelmente não teremos mais nenhuma floresta, tudo será fabricado artificialmente e nos restará a opção de mudar a cor e sentir o aroma artificial dos cheiros da natureza, igualmente a comidas que têm o aviso minúsculo de “sabor morango” e o morango é uma fruta muito antiga que perdeu a sua essência natural para uma tinta rosa com gosto de tinta com açúcar;  açúcar que também não é mais  açúcar...

Quando houver aquela fila enorme formada para todos serem efetivamente “chipados”, com algum discurso politicamente correto, de algum político eticamente incorreto (políticos são seres de mil vidas e mil caras e nunca teve chip que desse conta da sua extinção...),  numa abordagem do conformismo da civilização ultramoderna, que elimina os caminhos e jamais se perder nas rotas, todas as rotas são verificadas pelo chip, que oferecerá duas direções: esquerda e direita, porém, também, não existe mais a esquerda, esta foi alterada pelos americanos (donos do projeto dos chips), compraram esta alteração da esquerda no mundo todo.

Neste dia eu estarei com uma placa escrita à mão, trazendo a arte antiga da escrita, com os dizeres: - Digo Não ao Chip Humano!



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Alex Alermany.
  

domingo, 9 de outubro de 2016

O Rio das Palavras...





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Ah, as palavras! Correm como rio, sem espera... No congestionamento dos sentidos, sempre tem um engasgado com seu uso impróprio. Elas, livrem de intencionalidades malévolas, correm em busca de algum retoque perfeccionista, da sensibilidade da arte de entendê-las, em sua origem genuinamente tocante.

Talvez se falassem, diriam sobre a sua missão de evocar emoção, que no caminho dos gestos, sempre ocorrem facilmente. Mas, em sendo palavras, algo fica distanciado do ato, e mesmo assim, desejam também o mesmo fascínio de emocionar.

Tantas vertentes em seus cursos, as palavras absorvem tonalidades em todas as moradas de sua significação. Seus signos, com simbologias tão ricas, as deixam nuas e desertas, na hora  solitária da inscrição sem ser. Ela só quer Ser, um poema, um texto ou uma carta de antigamente repleta de romantismo em seu próprio e único veiculo de linguagem.  As palavras levavam a fantasia descrita de um rosto sem corpo, sem fala e com todo o magnetismo da sua viagem de letras.

As palavras querem a liberdade de correr no seu rio de mistérios!...



Suzete Brainer  (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Elzbieta Brozek.









quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Renda de Amor







Delicada renda,
carinhos entrelaçados
com gestos de palavras vivas
a te abraçar no bordado dos meus
dedos de amor.

Nas minhas costas,
a tatuagem do teu beijo
na inscrição da paixão.
Numa renda de luzes:
o sonho acordado
do fogo das mãos.

Ren(di)da
    de amor,
clarificando
    a trilha
    dos sentidos,
há a leveza dos passos
    conhecidos,
na continuação
à dança da vida!




Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)








                  

terça-feira, 4 de outubro de 2016

O Poeta com o Sol na Cabeça...










Um minuto no relógio da vida,
a cada folha do dia
a cair lentamente,
enquanto o sol se dissolve
impreterivelmente.

Cada renovação é
uma viagem de átimos
colhidos de dias
sempre no hoje.

A vida é imperiosa
na sua roupa do presente,
guardar o peso do passado
             ou
ansiosamente projetar no futuro;
            mero engano mental.
A vida quer a casa interior nua,
para livremente caminhar...

Na casa da poesia,
mora o poeta com o sol
            na cabeça
a dissolver os grãos
           da ilusão.
O poeta transgride em
construir palavras de sol.


Nota: A palavra Poeta se refere a quem escreve poesia (feminino e masculino).


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Vladimir Kush.




quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Uma Partícula Sonhadora












O mundo parece mais deserto
sem a casa dos sonhos.
O mundo parece mais povoado
de misérias sem nomes.
O mundo parece mais escuro
a cada esquina que alguém
mora na rua.

O mundo parece mais cruel
com  bombas explodindo pessoas
marcadas para morrer
em nome do fanatismo
pivô desta dicotomia humana
sem irmandade,
sem igualdade,
sem fraternidade,
sem o azul de uma unidade qualquer.
Imagino
(poeta tem imaginação sonhadora...)
uma palavra azul de uma
possível infinitude da partícula
(deus) do amor!



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Van Gogh.




sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Palavras que Renascem...






Ela percorreu uma volta dentro de si, os pensamentos como roda gigante, flutuante na ânsia de transcendência.

E tudo numa permanência de tons cinza, a quebrar o azul do sossego.

Ampliou a respiração como se fora um abraço por dentro de si...

Deixou um espaço a desenhar um voo, pequeno voo do sono, na pesca de sonhos que diminuam o peso concreto da realidade operante, sem folga. A fé no riso lhe diz que a tristeza sempre pode mudar de endereço.

Abriu a janela com a luz de uma lembrança a trazer o seu sorriso, num brilho tão libertador, que as palavras renasceram junto com ela.



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)




Aviso: Uma Breve pausa e logo eu volto

para o voo da partilha que tanto aprecio!...

Beijo e Abraço de Paz!





terça-feira, 20 de setembro de 2016

Ana Luz!





Acorda!... Ergue-te!... E vive!... / Wake up!... Get up!... And live!...




Um gesto suave,

gentileza bordando

a presença

       Luz

que fica no nome:

      Ana!


Palavras que desenham

     Amizade

Sem hora marcada

Sem protocolo

Sem acordos na sombra.

Uma

     Luz

No nome:

    Ana!


Dedicado à Ana Freire


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Foto Arte da Ana Freire.


 Querida Ana,

Meu carinho de amizade e o

meu registro da sua Luz-Ser!...

Beijinhos.


Aqui o Blog Da Ana (qualidade padrão Ana, um dos
melhores blogs que eu conheço, um voo inesquecível 
do bom gosto e beleza da arte!...)
http://artandkits.blogspot.com.br/2016/04/waking-up.html





sábado, 17 de setembro de 2016

As Pazes com a Natureza...





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A memória abriu a porta e me levou a um período em que morei numa casa duplex num privê de dez casas, com uma bela área verde de lazer, onde eu gostava de preservar aquele verde com árvores antigas e, na minha casa, muitas plantas. Na varanda do primeiro andar eu tinha vários depósitos para os beija-flores e outros passarinhos (a beber aquela água doce, trocada com o maior carinho e limpeza), de todas as cores e tamanhos a colorir em vida a minha varanda. Eu tinha o meu gato Shan (filhote ainda) que ficava a olhar todos através do vidro da janela do meu quarto. Era o seu vídeo game e, para mim,  um encontro com cada um que tinha nome e sobrenome, dado pelo meu olhar atento e alegre, de me sentir privilegiada com tanta beleza voando para minha casa, como se casa deles fosse.

Existia no privê um grupo de seis meninos; o mais velho, de oito anos,  liderava os menores, na faixa de 7 anos. Estavam naquela fase de agressividade com a natureza, os animais e numa autoafirmação do contra. Eles não gostavam da minha veneração amorosa à natureza.

Um dia fizeram uma "serenata" com música e letra de protesto contra a natureza bem abaixo da minha varanda, com coreografia e tudo, cada um com baleadeira na mão e o líder com o violão, cantavam e todos apontavam as suas armas de matar passarinho para minha varanda:                            
                                             "Vamos acabar com a natureza;
                                             Vamos matar os passarinhos,
                                             Vamos destruir os seus ninhos
                                             E sem mãe natureza.
                                            Fora os passarinhos
                                            Fora os passarinhos
                                            Fora os passarinhos
                                            E sem ninhos...!”

Eu a escutar e morrer de rir, com aquela criatividade rebelde deles. Como eles não sabiam a minha reação, por conta do meu silêncio, falarem de fora: “Ela não fez nada. Não disse nada. Será que ela não está em casa?” Quando resolvi abri a porta,  escutei de longe a gritaria deles: ”Ela abriu a porta e vem em nossa direção!”.

Aproximei-me deles e disse: - Meninos, sentem aqui e vamos conversar!- Eles se aproximaram devagar, e cada um falava uma frase ao mesmo tempo, numa confusão a dissolver o silêncio no breve espaço pacifico... O líder me disse: “Você veio brigar com a gente por nossa música e vai reclamar aos nossos pais pelo nosso comportamento?” E eu com a minha voz calma a lhe dizer que gostaria de dialogar com eles. E, eles a olharem entre si, sentaram perto de mim. Conversamos por varias horas, e falei da criatividade deles com a música, letra e coreografia. Depois a importância de amar a natureza e conviver bem com ela, pois ela nos ensina se tivemos a capacidade de olhar para cada detalhe belo e generoso que ela nos oferece todos os dias...

No final estávamos a observar os passarinhos, da minha varanda, e quando o líder me disse: “ Su, como faço outra música para a natureza, como faço as pazes com ela?” E eu lhe respondi: - Você já fez as pazes com a natureza, a música vai chegar e será muito bela!...-



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Arsen Kurbanov





segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Nossos Olhos, Nossa Casa...





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Estou em ti,
a maestrina da onda que leva
alegria a tatuar o teu sorriso do dia.

Estou em ti,
colada na tua pele em forma de desejo ardente.
Os teus pensamentos percorrem os meus
para o mesmo espaço de existência.

Estou em ti
Sem ausências
Sem distâncias
Sem dúvidas.
Uma completude sem anulação.

A luz dos meus olhos
    atravessa
lugares
    e fica
em todas as horas
no chamamento
   a te evocar.

Nossos olhos,
janelas abertas
da nossa casa.
Neles,
o inicio do fogo que incendeia nossas passagens.



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Elzbieta Brozek.




               


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

As Uvas do Mar...










Mais um sábado de sol, todos na praia e eu, a única adulta a adorar o banho de mar, para alegria da menina loirinha, com passos de bailarina, a pedir:"Tia, leva eu por o mar!..." Vamos Bru, nós adoramos o mar!!... Ela me dava aquelas mãozinhas para segurar nas minhas e eu acelerava os passos e, depois, a colocava nos braços, correndo, com  as gargalhadas dela fazendo música para todos na praia...

Ficávamos no mar conversando e sorrindo com a poesia que ele construía com suas ondas... Ela, tremendo e pedindo: ”conta mais histórias, Tia” (eu argumentava que ela precisava sair um pouco da água), e ela: “conta mais história, mais...”  Depois de sair do mar, ficávamos ao sol, a aquecer o nosso frio destilado de saudade das ondas amigas, que pertenciam ao mar na sua estrutura de música da vida: ondas alegres que alimentavam a nossa felicidade do dia! A magia do mar que em mim morava, visitava o universo imaginário da minha sobrinha, com as sementes do amor à natureza!...

Um dia ela viu o que chamou de alimentos do mar; algo que parecia um cacho de uvas. Ela disse que eram as uvinhas do mar; comidinha para os peixes, e me pediu: “Tia, joga para longe, no fundo do mar, para os peixinhos comerem e ninguém machucar as uvinhas; não deixar os peixinhos sem sobremesa”. Assim eu fiz, lancei bem longe para que os peixinhos comessem a sua sobremesa.  E eu disse que era Bru que estava enviando a sobremesa, enquanto lançava ao mar, e ela sorria de satisfação!...

Hoje, quando vou ao mar e vejo as uvinhas, lanço ao fundo do mar e penso: Os peixinhos não comeram ainda a sobremesa enviada por Bru... Ela, hoje, talvez nem se lembre de que um dia presenteou os peixinhos com seu carinho, o seu olhar atento à natureza, e a Tia (eu) acompanhado e estimulando este amor sublime que estrutura a sensibilidade humana por dentro, no encanto da bondade genuína.

Atualmente é uma mulher com corpo e postura de bailarina de caixinha de música, suavidade, gentileza, doçura, e ao mesmo tempo independente e dona da sua história (vida).

Separadas entre continentes, continuamos com a nossa ponte de afeto, que nos liga a grandes infinitos de comunhão humana e transcendental.  O amor sempre transcende a distâncias,  tempo e espaços.



Bru,

Beijinhos para ti, desta Tia que te ama sempre!



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Chelin Sanjuan.





                         





quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Poesia e Música que Eu Adoro!...





           O que Tinha de Ser


Porque foste na vida a última esperança
Encontrar-te me fez criança
Porque já eras meu sem eu saber
      sequer
Porque és o meu homem e eu tua mulher

Porque tu me chegastes sem me dizer
      que vinhas
E tuas mãos foram minhas, com calma
Porque foste em minh'alma como um
      amanhecer
Porque foste o que tinha de ser

Autores: Antonio Carlos Jobim
                Vinícius de Moraes 




        


   E a estrela maior e sempre da música brasileira,
   adorada, Elis Regina!!  



terça-feira, 6 de setembro de 2016

Recado de Aniversário...





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Ontem, mais um dia, um ano e a tua ausência tão disfarçada de presença... Aquele teu olhar a acolher a todos com a suavidade de um abraço protetor. Sim, mãe, tu abraçavas com o olhar; um olhar de unidade de alma, e como eu viajava na segurança do teu olhar que dizia sempre: - “Estou com você em todos os lugares e situações, a vida não é fácil e nem difícil, a vida é um desafio que precisa do amor para decifrar os caminhos com mais facilidade...”

Quero este teu olhar dentro do meu, a caminhar pela vida nas suas curvas e abismos.

Tenho este teu amor guardado em mim, e tudo levita quando penso na tua filosofia simples de vida, que colhia os mistérios no jardim do silêncio do olhar. O teu silêncio ensinava a dignidade de respeitar as singularidades humanas, numa igualdade fraterna de sentir o mundo!...

À minha mãe, Hilda.
Viva Hilda Brainer!


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Alexei Antonov.



sábado, 3 de setembro de 2016

Chuva de Setembro





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Hoje, nada de flores no caminho. Pisou a grama com gotículas de chuva, que vinham de dentro da sua alma. Deixou os cabelos ao vento de setembro, que ainda era de agosto; um vento no som tão alto, que abraçava a sua cintura, num nó de silêncio.

Descobriu que às vezes o ar é tão pesado que suspende o sorriso!

Mas, sabia também que, da brincadeira do dia nascer, renascem os motivos para que os olhos não guardem o sol escondido. A luz brotará com a certeza de tecer os sonhos mais delicados sem realidade.

E deixou todo o corpo molhado com a chuva de setembro e ventos de agosto, e sobre a sua pele de raios de sol renasceram pétalas de rosas, que sempre resistem a asperezas do meio ambiente.



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Richard S. Johnson



terça-feira, 30 de agosto de 2016

A Cópia - O Destino da Sombra -


       
     

              A Cópia - O Destino da Sombra -


                 


           
                                                  Formas


                                      a sombra que escurece

                                                 com os teus passos

                                                                     ligeiros

                                                             correndo pela

                                     curiosidade vazia

                                                silenciosamente

                                                                    morta

                                    num mero engano

                                                        do nada.



                                 Presentificando

                                             o fantasma

                                                 na espreita

                               do roubo

                                                das idéias.



                             Sombra

                              sempre será o teu destino

                                        esquecida

                                        num traço

                                                ultrapassado

                             pela mediocridade

                                               da cópia.



                         Quando de repente

                                 quiseres sentir o que te move

                                  encontrarás o eco da tua

                                                                    alma criadora

                                                         em luz

                                                                   presença única.

                       E os dias de sombra

                               ficarão no passado

                                                      quando desconhecias

                                                                 a inspiração.



                                "Ah, milhares de pessoas não tem coragem

                                  de pelo menos prolongar-se e um pouco mais

                                  nessa coisa desconhecida que é sentir-se,

                                  e preferem a mediocridade."  Clarice Lispector.



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem Foto de Celso Rubens Vieira e Silva.

Partilha: O valor do original (O autor) tem uma legitimidade que nenhuma
cópia (sombra) alcançará. 
Na singularidade, encontra-se a riqueza da multiplicidade da arte.
  
Poema Julho de 2013.



                                                   





terça-feira, 23 de agosto de 2016

O Rei da Sorbonne










A professora da cadeira de Teorias da Personalidade seria substituída por um amigo professor com Doutorado na Sorbonne. Ele iria ministrar as aulas durante o período de uma cirurgia e repouso a que a referida professora teria que cumprir, por recomendação médica. Ele (o professor), embora nascido no Recife, estava voltando de Paris para um período de seis meses e, por questão de currículo, contratado pela faculdade durante esse tempo. Desnecessário se faz dizer o quanto havia de devoção por parte da diretoria da faculdade, por conta do título que ele fazia questão de exibir.

No primeiro dia de aula, ele se apresenta com uma roupa formal de grife francesa, mais um belo casaco também francês, de outra grife famosa (o detalhe importante é que o nosso clima é sempre quente), colocou o casaco vestindo a cadeira, com a etiqueta da grife virada para nós, uma turma de 45 alunos, 44 mulheres e um único homem. Depois num discurso descritivo sobre o seu currículo e eu, ao perceber a sua vaidade espumando, sua arrogância de nos comunicar que teríamos a oportunidade de assistir as aulas de um Doutor em Psicologia com a especialização em Teoria da personalidade. No meio do seu afetado discurso, fazia questão de inserir palavras do idioma francês.

Assim seguia todas as aulas: o casaco vestindo a cadeira com a etiqueta à mostra e o esnobismo do Doutor, na tentativa de humilhar a nossa turma. Olhei para minha amiga Mary que, ao observar e decodificar minha inquietude, disse: “Su, não vale a pena, ele com certeza irá te perseguir e prejudicar. não vale apena amiga!”,  e eu concordei com a sensatez da minha amiga; o meu silêncio prevaleceu  com término da aula de exibição do Doutor.  Nunca invente de interromper esse Rei da Sorbonne, confiante em se auto afirmar na sua autoridade especial, afinal ele já é quase um “francês”, não mais um nordestino do terceiro mundo – disse a minha Amiga Mary, no caminho de casa...

Houve um dia em que Mary faltou à aula e eu, a contar e recontar internamente, para não reagir àquela estupidez egoica e habitual do Rei da Sorbonne... Ele a dizer que tinha autoridade e permissão da professora legitima da cadeira, para reprovar qualquer aluno que não correspondesse ao seu “padrão de exigência”, e, numa ameaça sarcástica, disse que a nossa turma estava no nível abaixo das suas expectativas e questionou quem poderia da turma responder o que era o arquétipo? Daí eu levantei a mão para responder o que era um arquétipo?  Ele me olhou espantado e, ainda sarcástico, disse: - “Será que você poderá me dar a resposta certa, já que esta turma até agora, não manifestou nem uma competência, sobre os assuntos brilhantemente abordados por mim?” Eu perguntei se poderia exemplificar um arquétipo. Ele me disse: - “Se você conseguir dar um exemplo correto é melhor do que o conceito”. Foi quando eu lhe respondi: - O senhor é um perfeito arquétipo de professor! Ele, a me olhar irritado e a repetir o que foi que você disse?  - Professor, como pode o senhor com toda a bagagem acadêmica da Sorbonne e não compreendendo a minha exemplificação do conceito arquétipo? A turma toda desabou numa gargalhada... Ele finalizou a aula e olhou para mim, por favor: quero falar com a senhorita – disse raivoso. Como já conhecia aquele olhar de professor, sedento de me perseguir, entendi a falta de Mary naquele momento, a sensatez dela me fez falta...

Depois que todos da turma haviam saído, ele olhou nos meus olhos e disse: -“Você brincou com fogo, mocinha!” E eu prontamente disse-lhe: - Não gosto de brincar com fogo, Doutor, eu pulo o fogo, como se fosse um obstáculo. “Suzete Brainer! Eu vou complicar a sua vida, terei o prazer de reprová-la!” Ao que eu prontamente perguntei: - Doutor professor, o senhor está me coagindo e constituindo, com seu ato covarde, uma ameaça de abuso de poder, sem nenhuma testemunha e achando que eu vou ficar morrendo de medo; facilitar para que o senhor injustamente me prejudique por lhe responder corretamente a sua pergunta na sala de aula? Ele, a me encarar com uma autoridade tão grande, que a sua baixa altura, magicamente tinha aumentado alguns centímetros (o que um Ego não faz?): - “Não vou esquecer que a senhorita fez uma turma toda gargalhar de mim, se prepare que você será reprovada!” No tom bem calmo, eu prontamente lhe respondi: - A manifestação da turma chama-se catarse, professor. Estes três meses aguentando o senhor a fazer piadinhas, desqualificando uma turma inteira, a mostrar o excesso de importância que o senhor pensa que tem, aconteceu o momento da catarse. Doutor professor fique o senhor sabendo que eu também não vou aceitar fácil esta sua vingança. Diferentemente dos alunos a quem o senhor tem ensinado, irei lutar por meus direitos legítimos de aluna ameaçada, meus direitos legais. Sai da sala sem olhar para trás e com a certeza de uma luta renhida e muito chata a enfrentar pela frente. O que está feito, está feito – pensei. O que me restava agora era buscar meios corretos de não ser prejudicada pelo Rei da Sorbonne.

No dia da prova ele fez uma surpresa para a turma toda. A prova seria individual, (algo totalmente contrário ao de costume da professora da cadeira, que sempre realizava a prova em dupla). Mary olhou para mim, sabendo que o vingativo professor planejava. Com este modo individual, ele poderia executar o seu plano de me colocar para a prova final, e assim, poder me reprovar concretamente.

Na aula seguinte, ele devolveu as provas com as notas e – claro - me colocou uma média em que eu estaria para prova final. Quando vi a prova, prontamente comuniquei à turma que o Doutor Professor tinha um plano de vingança para me reprovar, que após aquela catarse de gargalhada da turma, provocada por mim, ele teria me ameaçado com a vingança da reprovação. Ele ficou surpreso com a minha coragem de comunicar a turma, e contra-argumentou que avaliação era a subjetividade do mestre da cadeira e nada disso constituía uma vingança. Foi quando ele conheceu o Leo (único homem da turma), com a sua ironia cortante, levantou-se e disse: “Lamento muito de não ter vivenciado a catarse da gargalhada, quando estou presente na sua aula, ela tem um propósito muito nobre: o de me fazer dormir depois da minha farra da noite anterior. O senhor reprovar a Suzete Brainer é um ato de uma burrice, que deixa a evidência que o senhor comete o crime de abuso de poder e vingança. Isto será de conhecimento de todos.” O professor com muita ironia diz para o Leo: - “Não adianta a sua defesa de paixão por Suzete; eu sou única autoridade para decidir sobre avaliação das provas dos alunos”. O Leo, muito irônico, mestre  em desconcertar qualquer um que lhe provocasse, diz: “Professor, vou lhe dar outro exemplo de arquétipo, eu sou homossexual assumido, o arquétipo do único homem que cursa Psicologia numa turma de mulheres, uma bichona, professor (faz os trejeitos com as mãos), e, por isso, não posso ser apaixonado por Suzete, mas eu a admiro muito, tanto que vou deixar que o senhor direcione a sua vingança para mim. O senhor me reprova e a sua reprovação será adequada, pois eu nunca tiro notas excelentes, assim, ninguém suspeitará do senhor pela minha  reprovação!” A turma toda a gargalhar  e o Leo adorando aquele espetáculo acabando a aula do Rei da Sorbonne, que foi embora com tanta raiva que esqueceu o seu troféu: o casaco na cadeira pela a primeira vez. Eu abraço o Leo e digo que ele quer colecionar reprovações, que ele precisa encontrar um curso que a leve a sério.  Ele olha para mim, me diz baixinho: - “No dia que eu me levar a sério, eu morro, enquanto isso, eu faço alguma coisa boa para pessoas sérias como tu, Su!” Eu emocionada, não digo mais nada...

No outro dia eu vou à coordenação de apoio ao estudante, a qual, nunca teve nenhuma queixa formal contra nenhum professor. Aquele departamento atuava noutras funções e não na função específica que a ele era designada. A Célia, coordenadora muito querida dos alunos e dos professores,  sempre encontrava o bom caminho de dissolver conflitos; na maioria dos casos com prejuízos para os alunos. Quando, ela me escuta a querer fazer um registro de queixa do professor Sorbonne, fica apavorada. Tenta de todas as formas a me convencer de não realizar o registro, situação impossível de acontecer, pois eu estava totalmente decidida. A minha discussão foi com a minha amiga Mary, que quis ser testemunha e levar a prova dela como elemento de comparação, a fim de evidenciar  que a minha prova era melhor que a dela e ela estava com nota bem melhor e já aprovada por média. Célia olha a prova de Mary, constata a má-fé do professor na avaliação, mesmo assim eu não queria que a Mary se envolvesse, mas ela argumentou com toda razão, que já estava aprovada e que a prova dela serviria como elemento fundamental de comparação com a minha, a fim de que os avaliadores percebessem o erro do professor.

No dia marcado da prova final, para nossa surpresa ele diz que a prova será em dupla.  Antes da prova ele me pediu para retirar a queixa, dizendo que aquela ameaça teria sido uma brincadeira dele. Eu lhe disse que levava muito a sério as brincadeiras e por isso não ia retirar. Eu pergunto ao professor se posso fazer a prova individual, pois não queria levar ninguém junto comigo a reprovação. Vânia, que sempre foi uma inteligência superdotada, manifestou a vontade de fazer a prova comigo - uma oportunidade única - pois sempre fiz provas em dupla com a Mary e nunca fomos para a final. Eu fiquei relutante em aceitar, mas ela insistiu muito e fizemos uma excelente prova. Ela me disse que tinha feito à prova anterior péssima, pois tinha ficado com resistência à afetação do professor e não tinha estudado o assunto, mas agora estava preparada e tinha ficado indignada com atitude do Rei da Sorbonne comigo, na avaliação da minha prova.

Ele corrigiu as provas na hora e único dez foi dado à nossa prova.  Não reprovou ninguém, a não ser o Leo que não compareceu à prova. Antes da minha saída da sala, ele me declarou: - “Suzete Brainer, você tem competência e mereceu a nota máxima com a Vânia Bastos, parabéns para as duas!”. E minhas últimas palavras para ele: - Professor a competência é muito maior que resultados, notas e títulos; a competência é nunca perder a ética para se avaliar  imparcialmente as pessoas; não me conformo com o abuso de poder de supostas autoridades em qualquer setor, a cometer injustiças por questões egoicas. Agora irei retirar a queixa, para que seu currículo continue perfeito. Espero sinceramente que o senhor se torne mais humano e menos astro!

No corredor à minha espera estava Mary e Nara (que cursava na outra turma) e, distante, numa cadeira, o Leo no maior sono.

Dedico esta crônica à amizade; àqueles amigos queridos que o tempo e as vicissitudes da vida faz questão de separar, mesmo sendo - como foi - tão bom estarmos juntos. De todos, só a Narinha que me visita neste blog. Aos outros que ficaram na minha memória afetiva, como símbolo de solidariedade tão humana, na dimensão mais sublime que uma amizade pode alcançar, eu desejo uma Paz Profunda e muitas Felicidades, sempre!



Suzete Brainer  (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Matisse.