terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Ela Atemporal





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Ela olhava as setas de armadilhas expostas em coluna vertebral da esquina dos enganos. Decidiu silenciar os ecos de qualquer utopia de um mundo fraterno.

Sabia o quanto o seu coração vagamundo pousava no "coração vagabundo" bossa-nova, na voz do João Gilberto, cujo sonho de uma época que não foi sua, mas escolheria pousar naquele espaço-tempo em que a música soprava o amor numa delicadeza de eternidades; a entrega era uma suavidade  de certezas...

Ela no romantismo poético se perde na poeira deste mundo feito de estalos de dedos do imediatismo e, no ato de esconder os olhos na ignorância de não saber das janelas da alma, em que o brilho dos olhos diz mais do que as palavras, na interligação dos pensamentos, na viagem íntima do percurso libertário sem fios, sem bateria e sem erros.

Ela, com este coração frágil atemporal, voa para um tempo azul seu, e ao mesmo tempo, os passos seguem a caminhada na chamada das responsabilidades, no carimbo dos dias. 


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: obra de Richard S. Johnson.



sábado, 21 de janeiro de 2017

Pouso





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A minha vida

    Tem um doce perfume,

Que vaga

       Vaga-lume.

Um clarão discreto

De um tempo curto,

     (Pensamento)

De um sopro de segundo,

No claro e escuro;

     Vaga
    
     Vagamundo. 


Apenas, sei que a minha presença

    Faz pausa

   E pouso

Inspirando o jardim...




Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de  Iovka Mechkarova. 


domingo, 15 de janeiro de 2017

O Amanhã do Ontem...







         
Eu tinha dezesseis anos, carregava a minha poesia no equilíbrio dos dias entre uma rotina de estudos e leituras. O meu universo poético era secreto: não partilhava. Poucos sabiam que eu escrevia, e raros os que liam. Para mim, a poesia era um espaço meu, um sentir, um olhar... Quase uma inscrição da minha alma; a revelação deste meu olhar que não muda o mundo. O mundo permanece o mesmo, as pessoas também. Sempre preferi a minha viagem nas ondas do meu pensamento, construindo trilhas de voos imaginários, cobertos do amanhã, numa brevidade de constatação da roupagem do tempo que já se tornara ontem...

Nesta mesma  época, estava matriculada no cursinho para vestibular. A aula de Literatura era especial, o professor Tomás era um mestre no encantamento para a poesia. Márcia, uma amiga do cursinho, era a única que sabia que eu escrevia poesia, ela também escrevia. Depois de muitos pedidos dela, resolvi lhe entregar um poema meu para que ela lesse em sua casa.

No dia seguinte, na aula do professor Tomás, ele nos diz:
- Hoje irei analisar um poema de uma aluna desta sala, claro, com a permissão dela.
Quando a minha surpresa ao constatar o meu poema no quadro, e Tomás se dirigi a Márcia como a autora.
De súbito, fiquei em pé olhando para Márcia, com o meu silêncio questionador!...
Tomás imediatamente percebe algo estranho e verbaliza. Diante da atitude imperativa do professor, a Márcia revela que aquele poema não era dela, mas de uma amiga da sala (no caso eu...). Os poemas dela todos estavam assinados e aquele era o único que não, pois estava ali por engano.
Após a aula tumultuada, ele conversou com as duas. Eu estava muito perplexa com tudo. Quanto mais a Márcia tentava se explicar, a complicação crescia com novas dúvidas, que se encaminhavam para uma falta de lógica geral.

O professor Tomás foi a parte boa da história. Com ele aprendi muito do universo da poesia. Nunca esqueci das recomendações: assinar, ler, sentir e reler o poema; e a principal: a leitura ser um ato de amor. Ele dizia que há uma diferença muito grande daquele que se esforça a ser um poeta e do que nasce poeta. Porém, para os dois tipos era necessário sempre aprender e evoluir no caminho da poesia. Ele somente não entendia a minha resistência em publicar os meus poemas. Conceituava a minha juventude como responsável pela minha introspecção e sentimento de posse sobre os meus escritos, num determinismo de não partilhar com o mundo. Assim, ele levava os meus poemas assinados, datados; retornando-os para mim, ricos com o olhar do mestre que amava e sabia do imensurável da poesia. Nas suas mãos, cada palavra era sentida e entendida com a beleza essencial de quem olha, toca e encontra o tom da afinação, a música já existente com todo o seu mistério...

Hoje, soube que ontem ele tinha falecido (complicações de um trasplante de coração). Logo ele, com um coração grandioso, repleto de registros poéticos.  

Esses amanhãs, do ontem, às vezes são muito dolorosos, mas quando focamos a emoção nas lembranças sublimes, a dor canta uma saudade doce.
Sabemos que tudo vale a pena, quando a alma não é pequena. Como dizia o maior de todos os poetas, o Fernando Pessoa.
                        
      

  Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)
   
  Imagem: Obra de Alberto Pancorbo.
        
         
              

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Delicado Voo




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Ela deixou as palavras ocuparem os seus lugares e, num ponto de observação, vestiu as suas mãos de significados invisíveis aos olhos nus.

Num aceno de adeus deixou sentires únicos vibrar com as asas emprestadas da sua vizinha de árvore vista da janela - uma Bem-te-vi-,  que generosamente doou a possibilidade do voo num espaço etéreo dos sonhos guardados; escritos no guardanapo rosa da poesia sem nome e sem estrada.


Ela foi neste céu sem nuvem. Nenhuma palavra morta circulava e gestos de pássaros inscritos de silêncios, deixaram as suas belas lembranças passearem por dentro, acordando delicadamente o imprescindível sentir. 


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Richard S. Johnson.




sábado, 7 de janeiro de 2017

Emoção




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Um pingo
Num ponto
Da geometria do meu rosto,
Perto dos olhos,
A fazer uma sombra
De uma palavra
Inscrita.



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Anna Razumovskaya.




quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Humanos com Gestos de Anjos





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                                                  "Basta um feixe de luz
                                                   Para acordar um olhar
                                                   E encantá-lo com o belo
                                                         No escuro da noite" (Marilene Duarte)




Existem pessoas com a suavidade
Da luz, a se inscrever nos espaços.
Marcam pela leveza
Da não intromissão.

Fazem dos seus passos
A jornada do vazio,
Sem alegorias.
A simplicidade de Ser
Sem nenhuma dúvida.

Existem pessoas que ainda
Querem gestos
De gentileza humana...
A cada dia,
Infelizmente,
A gentileza
Encontra-se na esfera
Dos anjos.
Os humanos amplificam
A brutalidade
Como marca da raça.
Mesmo assim,
Eu acredito nos humanos
Com gestos de anjos!...




Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Daniel Gerhartz.


Dedico este poema a Marilene Duarte (mês do seu aniversário...)!

Querida Poeta Amiga,

O meu gesto de carinho de amizade e admiração pelo Ser
luminoso que você é, com a sensibilidade e imenso talento
na Poesia, Literatura e fotografia!...
Um lindo renascer com a concretização de todos os seus
sonhos. Agradeço todos os seus gestos de anjo neste meu
caminhar por aqui...
Beijo e abraço de paz!
                                        

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Janelas do Desejo





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As palavras são gestos da poesia do mural do dia.


Elas, despidas de alegorias,

Trazem o abraço dos olhos que falam sem sombras;

Luz emitida do passeio da alma: a janela da verdade.

O balé de cores de sentires

Se autoafirma no palco do agora.


O agora é único

              Despido

             Transfigurado

Em poesia, que se desfaz da realidade

E mergulha na magia,

Retirando o ar

            Em desejo.



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Richard S. Johnson.





segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O Percurso





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A minha pele veste
A sonoridade do vento
Que não deixa marcas;

Guarda uma trilha
De silêncios
Colhidos no meu
Entardecer...

O sol me acorda,
Deixando todos
Amanheceres
Sobre a minha pele,
Com a inscrição
Da brevidade da vida.





Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Richard S. Johnson


Meus Votos de 2017, um novo percurso que seja luminoso,
harmonioso, pacífico, pleno de realizações nas asas da
Poesia, da Arte e da Singularidade e da Pluralidade numa
humanidade mais Afetuosa, Justa e Igual  na unidade
de irmandade da grande Raça Humana!...

Beijo e Abraço de Paz!

Suzete.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Celebrar Com a Bela Voz de Milton Nascimento





    "São os passos que fazem os caminhos."
     (Mário Quintana).




         Feliz Natal, cada um com os seus passos
         e ritmos de Ser Feliz!...
         Beijo e Abraço de Paz!
         Suzete Brainer.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A Transcendência do Entardecer...




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Cada passo giratório
A ficar plasmado neste ar
Etéreo de suspense.

Os dias evaporam
As ideias rígidas,
A magia da vida
Altera as certezas absolutas.

Deixar as mãos soltas
Na esperança de
Serem asas um dia,
Para um voo
Na delicadeza de ser livre,
No abraço que transcenda
O entardecer das palavras...



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Richard S. Johnson.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Canto aos Frágeis




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Hoje,
Vejo todos os frágeis
Com um tecido de sentires
Que vai além das
Palavras mortas
De glórias.

Vejo os frágeis
Que vestem a realidade
Na rearrumação
Do espaço dos sonhos,
Que não gritam a vantagem
Bruta
De invasão e posse.

Existe uma fortaleza
Na fragilidade,
Com gosto honesto
Da sensibilidade
Que toca na dor
De dentro
E de fora.

Canto para quem sente
O desencanto
Do avesso
Da solidariedade.
Um travo
Na palavra molhada
Da indignação
De todas as desigualdades.
Canto o silêncio
Da opressão
De todos os abandonos.

Canto sem música
No piano.
Um belo Noturno
Transcende
Todos os desenganos!...


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Do Google.









quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

A Tarefa da Luz





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Arrumar cada

         Passo

            Na fileira do pensamento

                Flutuante...


Desarrumar as estações

        Feitas

           Do ontem.


Renascer nos dias

       Com a nova

          Pele dos desejos.


A luz preenche

      Os vazios,

         Basta se desapegar!...






Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Do Google.

Aviso: Uma breve pausa no blog. Assim que voltar irei visitar
           os espaços amigos para o voo da partilha que tanto
           aprecio.
           Beijo e Abraço de paz!...


terça-feira, 29 de novembro de 2016

A Respiração da Alma...




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Saudade desfolhada
Em teu nome...
O registro das lágrimas no caminhar
Silencioso de ti, mãe!

Neste vazio,
Toco a sensação de abandono,
Talhado
(cristalizado),
 No dia do adeus.

Sinto o teu perfume
Na inscrição dos teus
Passos,
E descubro que tu tens asas.
Toda boa mãe adquire asas
Depois do adeus.
O olhar protetor se eterniza
Num abraço da tessitura
Da alma que respira!...


Sim, mais um poema para minha mãe, 
a desnudar a minha eterna saudade!


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de  Richard S. Johnson.



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O Bordado da Vida





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Emudecem os dias sem pressa,
as folhas voam na melodia
da calma da página em branco,
tudo começa e recomeça nos
instantes de uma escolha.

A pressa é a morte lenta
das certezas,
retidas no olhar fechado.

A vida,
(nos instantes)
tem a beleza de bordar
as horas
em um novo olhar.




(Outubro 2016)



Suzete Brainer  (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Richard S. Johnson



terça-feira, 22 de novembro de 2016

Grandes Poemas Que Eu Adoro!...




Paisagem pelo telefone



Sempre que no telefone 
me falavas, eu diria 
que falavas de uma sala 
toda de luz invadida,
sala que pelas janelas, 
duzentas, se oferecia 
a alguma manhã de praia, 
mais manhã porque marinha,
a alguma manhã de praia 
no prumo do meio-dia, 
meio-dia mineral 
de uma praia nordestina,
Nordeste de Pernambuco, 
onde as manhãs são mais limpas, 
Pernambuco do Recife, 
de Piedade, de Olinda,
sempre povoado de velas, 
brancas, ao sol estendidas, 
de jangadas, que são velas 
mais brancas porque salinas,
que, como muros caiados 
possuem luz intestina, 
pois não é o sol quem as veste 
e tampouco as ilumina,
mais bem, somente as desveste 
de toda sombra ou neblina, 
deixando que livres brilhem 
os cristais que dentro tinham. 

Pois, assim, no telefone 
tua voz me parecia 
como se de tal manhã 
estivesses envolvida,
fresca e clara, como se 
telefonasses despida, 
ou, se vestida, somente 
de roupa de banho, mínima,
e que por mínima, pouco 
de tua luz própria tira, 
e até mais, quando falavas 
no telefone, eu diria 

que estavas de todo nua, 
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais clara
pois a água nada embacia,
sim, como o sol sobre a cal 
seis estrofes mais acima, 
a água clara não te acende: 
libera a luz que já tinhas.


Autor: João Cabral de Melo Neto.

João Cabral de Melo Neto: (Recife, 9 de janeiro de 1920 - Rio de Janeiro, 9
de outubro de 1999). Além de grande poeta, foi um diplomata brasileiro.
Pertenceu a geração de 45, terceira geração do modernismo.
Ao longo da sua trajetória de poeta escritor foi merecidamente agraciado com
diversos prêmios e honras literárias.
Foi membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Pernambucana
de letras. A sua poesia tinha como estrutura linguística, estética e formal na
base racional e num trabalho constante de aperfeiçoamento. O poeta era
avesso ao sentimentalismo e a inspiração. Neste aspecto da inspiração eu
discordo, para mim, a poesia inspirada tem um encantamento único. 







                          


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O Toque do Voo





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Um toque meu
no teu olhar de voo.
Tudo fica leve na
nudez das nossas mãos.

As palavras giram
em minha volta,
a colar nos meus
movimentos
toda a rota do
teu corpo.

O toque das tuas mãos
Na minha cintura
E a dança na amplitude
Dos nossos gestos,
Pousam na sala
Sem parede.
Ficamos na janela
Dos nossos olhos!...



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Richard S. Johnson.



quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Poesia e Música Que Eu Adoro!...





     Por Toda a Minha Vida 

    Oh, meu bem amado
       Quero  fazer de um juramento uma canção
       Eu prometo por toda a minha vida
       Ser somente tua e amar-te como nunca
       Ninguém jamais amou ninguém


       Oh, meu bem amado
       Estrela pura, aparecida
       Eu te amo e te proclamo
       O meu amor, o meu amor
       Maior que tudo quando existe
       Oh, meu amor


Autores: Antônio Carlos Jobim
                Vinícius de Moraes




     


       A Estrela maior e eterna, a querida Elis Regina!!



sábado, 12 de novembro de 2016

O Filósofo Burguês...







Lembro-me deste querido amigo com uma saudade dorida, mas sempre acompanhada de um sorriso. A nossa amizade sempre foi recheada pelo o humor; o meu amigo era um perito da ironia desconcertante e sedutora. Reclamava de mim, sempre dizendo que eu não levava a sério o seu mau humor e visão ácida (crítica) do cotidiano... 

Tínhamos filosofia e visão de mundo bem diferentes. No gosto musical, na literatura, cinema e artes em geral, éramos como irmãos gêmeos; estávamos na mesma sintonia. Ele não suportava o contato com a natureza, apesar de adorá-la como imagem de contemplação. Colocar os pés no chão, para ele, era despir a sua alma. Assim dizia: “nada melhor do que um ar condicionado; aquele botão para diminuir ou aumentar a temperatura; um bom livro na mão ocupando os olhos ao preenchimento da mente e à audição, o sublime noturno de Chopin...”

Não entendia a minha necessidade da natureza, a mãe terra. Por isso me apelidou de “menina das borboletas” e, por sua vez, o apelidei de o “filósofo burguês”.  Fora isso, era de uma humanidade luminosa e genuína (atitudes de solidariedade e altruísmo raros), mediante garantia de anonimato. Ele ria quando eu verbalizava que adorava “a sua gentileza rústica”.

Às vezes, quando nos encontrávamos para conversar no café; apreciar um cappuccino e trocar informações preciosas sobre literatura, música e artes em geral. Tudo saboreado pelo senso de humor... Ele afirmava:      
- Su, fico impressionado como tu és identificada com a minha geração. Só te localizo na geração a que pertences, nos teus projetos de “menina das borboletas”; pela sintonia com a natureza, meditação e autonomia feminina. Há uma diferença de gerações entre nós, que poderia constituir um abismo, entretanto, tu és a amiga mais próxima, a única que percorreu um caminho por dentro de mim (alma). A única que conhece o grafite do meu mau humor por todos detestado.  Só tu desabas de rir, não me levando a sério e me afastando do compromisso de ser intransigente. Mas não sou um intransigente qualquer, sou um intransigente irônico!
Antes de responder, observei que o meu amigo estava emocionado, como nunca tinha visto antes. Pressenti algo, uma sensação tão estranha, uma ausência (futura?) dele.
- Este “filósofo Burguês” está tão sensível hoje, que estou com saudade do seu lado grafite! Tem algo novo para me dizer?
- Sim. Minha namorada eu a amo, os meus filhos e os poucos amigos, também. Mas a ti, minha doce amiga, eu amo e adoro!...
- Essa despendida é por conta “deste adoro”, que só a mim pertence. Fico sem este abono e prometo suportar o teu humor grafite, sem nenhuma desmoralização, sem nenhuma crise de riso frouxo...

Fazia meses que não nos encontrávamos, sendo aquele o nosso último encontro regado da nossa amizade. Um dos melhores amigos que tive... Cada vez mais a minha listinha é curta, mínima. Amizade é uma joia rara de se encontrar; o mundo está repleto de joias falsificadas, de fácil acesso na vitrine das aparências.

Uma semana após o nosso encontro, recebi um aviso da sua namorada (ele era divorciado), que ele estava internado no hospital, aguardando uma cirurgia. Quando fui visitá-lo, constatei o cenário original: as enfermeiras sorrindo com o “texto hilário” do meu amigo, as palavras ironicamente pousadas no ambiente, transcendendo a monotonia habitual do hospital. 

No dia da sua cirurgia cardíaca, ele segurou a minha mão:
- Saindo desta sala pré-morte, irei participar dos teus projetos de “menina das borboletas”; respirar ar puro, meditar até o nada do silêncio, mas se não, irei para o nada do silêncio também... 

Eu só chorava num silêncio das palavras boiando numa dor latejante... Ele, com as mãos fazendo o movimento, como o das asas das borboletas...

Ele não resistiu à cirurgia. Até hoje, quando medito, encontro-o no silêncio do nada.

Hoje, seria dia do seu aniversário. Imagino que deves estar fazendo barulho no silêncio... Como sinto saudade do teu barulho sonoro (Beethoviano), meu amigo!...

Outubro - 2015


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Lídia Wylangowska.






                  



terça-feira, 8 de novembro de 2016

O Olhar do Espelho




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                        O espelho que
                         há em mim
                          silencia
                   todos os reflexos
                         aparentes


               Toca  a música
           da minha permanência
               na pele da alma


              Como uma harpa
                     cada nota
              numa ressonância
                     que atinge
                     a escala do som


                         O meu olhar
                      toca no espelho
                         o sentir pleno
                             da viagem
                            da passagem
                            que é a vida!



Suzete Brainer ( Direitos autorais registrados)
  
Imagem: Obra de Vicente Romero Redondo.