segunda-feira, 20 de março de 2017

O Pensamento que Voa





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Malu tinha em seus pensamentos a mágica do transporte; não perdia tempo com a realidade limitante entre os espaços das ideias e ações. Voltava sempre para o seu jardim colorido, com borboletas que tocavam a sua alma. Todas as recordações corriam pelos seus olhos num espaço do sentir; a viagem acontecia na delicadeza do toque precioso do agora!

Afinal, pensava: a vida é uma viagem com a data da volta desconhecida para o viajante. O essencial é saber que a viagem é quase um milagre de partículas de luz, num corpo de uma borboleta em pleno voo...

Malu aguardou o silêncio enquanto voava na respiração da sua meditação. Sentiu que na viagem, inspirar e expirar levam à respiração completa o combustível do pensamento. Podemos, com o pensamento, voar com toda plenitude.


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Alexandrina Karadjova.


Aviso: Uma pausa aqui, no blog, devido a compromissos
           profissionais. Assim que retornar, visitarei os
          blogs dos amigos para o voo da partilha que
          tanto aprecio.

          Beijo e Abraço de Paz!

domingo, 19 de março de 2017

Poema e Música Que Eu Adoro!...






Epigrama nº 5 


Gosto da gota d'água que se equilibra
na folha rasa, tremendo ao vento.

Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.

Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar - límpido e exato.

E a folha é um pequeno deserto
para a imensidão do ato.


Autora: Cecília Meireles - Livro: Viagem- Global editora. 





sexta-feira, 17 de março de 2017

Fotossíntese da Alma




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Criar a palavra nua dentro da pedra escura. Um instante de vazios sem nomes, a solidariedade é tão rara como uma amizade desinteressada. Os espaços das ruas se encontram desertos, cada um com seu escudo a morar nas cavernas por dentro...

Ficar no silêncio profundo de uma alma que se desliga da superficialidade; atemporal, não reconhece a casa por fora.

Internamente a casa, numa amplitude sem paredes ou moveis, flui líquidos e cristais com rosas reluzentes, colhidas na fotossíntese da alma. 




Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Alexandrina Karadjova.


O Mundo cada vez mais escurecido, mas acredito e sempre
irei acreditar nas pessoas que semeiam flores reluzentes
da sua alma, nos desertos!...



quarta-feira, 15 de março de 2017

O Gesto da Existência









Minhas asas guardadas para amanhã.

O meu voo leva a liberdade
Nascida pela manhã;
Tem um tom vermelho do sol do meio dia.
As palavras são soltas,
A correr sem algemas
Da censura prévia.

A simplicidade passeia pelo o meu
Campo das ideias,
Gosto dos frutos das árvores com sabor
Da natureza molhada da chuva,
O banho de chuva no mar deserto,
As estrelas acesas no escuro do céu numa montanha.

Gosto da vida num sopro
Morno do vento, a desarrumar o meu cabelo;
A tocar em mim,
O gesto da existência.






Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Lauri Blank.


segunda-feira, 13 de março de 2017

Gestos de Gatos...




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Gatinha a ficar
Nos teus braços,
Aninhada na eternidade
Dos nossos gestos...

Dormimos um sono de gato
Com nosso mundo acordado
À espera das manhãs
Quentes e preguiçosas.
Trocamos de pele
Com nossos olhos unificados
Sem horas,
A evaporar pela janela...


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Ana Razumovska



                            



quarta-feira, 8 de março de 2017

Uma Garça nos meus Olhos...




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Ficamos num balé, dois passos meus de puro silêncio e um passo dela de graciosidade aérea. Numa proximidade de encantos os meus olhos fotografavam seus movimentos, sua plumagem, sua delicadeza trilhada numa liberdade partilhada comigo.

O solo, o arrecifes, com ondas finas e delicadas a nos tocar...

A música do mar nos isolava numa sintonia misteriosa e sagrada, que me dava à certeza, que estes momentos mágicos imprimem a poesia por dentro, a consagrar o milagre do encontro.

Foi quando disse mentalmente para ela, que não iria abusar deste tempo mágico concedido; pedi-lhe para quando voasse, me levasse junto. Ela entendeu o meu pedido, compreendendo os limites de quem não tem asas.

Distante, olhei para trás: encontro de olhares, e, ela voou e eu fechei os olhos. O meu pedido foi realizado.

Caminhei com uma garça nos meus olhos no decorrer dos dias...


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Alexandrina Karadjova.


segunda-feira, 6 de março de 2017

Grandes Poemas Que Eu Adoro...






Para ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida



Autor: Mia Couto. 
Livro:Mia Couto [poemas escolhidos]
             seleção do autor
             Apresentação José Castello
             Companhia das Letras

Mia Couto: Nasceu em 1955 na Beira, Moçambique.
                    É biólogo, jornalista e autor de mais de
                    trinta livros, entre prosa e poesia.
                    Recebeu uma série de prêmios
                    literários, entre eles o Camões em 2013.








                                       
                                       
                            Belíssima música de Lenine e 
                            Lula Queiroga que toca bem
                            profundo na onda da alma...
                            Embalado pelo ritmo Pernambucano
                            da Ciranda.

                             Vou ali na onda da Ciranda e
                             volto logo...
                             Beijos e Abraço de paz!


sábado, 4 de março de 2017

Às Vezes...




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Às vezes subo até a superfície das palavras
Para respirar um gesto vago
De um silêncio sobre a pausa.

Às vezes olho por dentro dos olhos das pessoas
Para sentir uma humanidade
Que cala...

Às vezes colho o dia em minhas mãos
Para sentir o perfume
De deus.

Às vezes fico numa melodia solitária
Para deixar a solidão do mundo
Ecoar o deserto...



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Alexandrina Karadjova.




sexta-feira, 3 de março de 2017

Cadê as Minhas Asas?









Uma morte que me dilacera em

Cortes pequenos do meu sol desfalecido,

Como uma rua deserta que me circula,

A única porta sou eu,

Sentada à minha espera.


Frágeis janelas que abrem e sempre fecham.


Preciso dos pássaros

Para voarmos junto,

Hoje eu não quero o chão.





Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Daniel Gerhartz.







       

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Menina de Cabelos de Sol...




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Depois de saboroso lanche feito com seus doces caseiros e o bolo da vovó, sentávamos, na cadeira grande de balanço, eu com 7  anos, no seu colo, à hora das histórias inventadas por ela, como música na construção do meu imaginário e na marcação do som, a cadeira de balanço no ritmo da minha curiosidade infantil acelerada ...

“Era uma vez uma menina dos cabelos de sol, loiros e longos até a cintura. Morava no mundo do Sol, tudo lá era dourado e brilhante... Não existiam brigas, todo mundo falava pelo pensamento e no pensamento, as palavras são mansas, moram bem perto do coração. A menina e sua família viviam felizes e lá todas as famílias eram felizes. Todas as casas tinham jardins de rosas de todas as cores e perfumes. Não tinha noite, pois o Sol é que regia sempre; uma vez a um ano tinha uma Lua cheia que ficava por 7 dias e ela e o Sol ficavam juntos, como uma dança. Alguns momentos ficavam noite com clarão da Lua e outros dia com o Sol regendo. Um dia o Sol brigou com a Lua cheia e todos foram atingidos por essa briga. Ninguém mais entendia o outro. As famílias começaram a brigar todos os dias. Quem foi mais atingida foram as rosas e todas morreram: algumas queimaram, outras murcharam e se despetalaram... A menina, que era muito amiga das rosas, ficou muito triste e nunca tinha conhecido a tristeza. Os seus olhos ficaram sem brilho, a sua voz sem o canto e não queria mais dançar. Enquanto todos brigavam, ela, a única que ficava calada e triste num canto do jardim sem rosas... “

Eu queria saber o que aconteceu com a menina e a minha avó me fazia esperar para outra tarde de sessão de histórias inventadas e contadas por ela. Eu aguardava esta tarde com os meus olhos brilhando de curiosidade, imaginava que o tempo era muito chato e não gostava de histórias, pois demorava tanto para chegar o dia... Ficava perguntando as horas para minha mãe e ela, intrigada, me dizia: "que tanto eu queria saber das horas?...”

Quando cheguei à casa da minha avó, de imediato fui para cadeira de balaço, argumentando que precisava saber da menina dos cabelos de sol e o lanche ficaria para depois da história contada... Ela riu, dizendo que eu tinha fome de história imaginada!...

“A menina dos cabelos de sol estava muito fraquinha, não queria mais abrir os olhos para o mundo desmantelado daquele... Nem a mãe dela notava que a tristeza nela, estava sugando a sua luz-vida, todos continuavam na animação para as brigas de dia e de noite, de noite e de e dia... Foi quando o Sol resolveu se separar de vez da Lua cheia e, assim: os dias ficaram com o Sol e as noites com a Lua, mas a Lua muito contrariada com a decisão do Sol, resolveu se expressar por períodos, os seus sentires femininos na oscilação das vibrações. Ela passou a influenciar as marés e o mundo do Sol nunca mais ficou o mesmo. Todos se acostumaram com o mundo do Sol desfeito, mas ela não. Um dia bem cedinho, antes de o Sol nascer, ela fugiu para dentro dele e hoje aqueles raios do Sol, fininhos, são os cabelos dela!...”

Enquanto comia o meu lanche, não parava de pensar na menina e perguntei a minha avó:
- A menina ficou alegre lá. Naquele lugar a tristeza nunca mais vai entrar nela, né isso, minha avó?
- Ela pode ser maior que a tristeza! (minha bonequinha...)
-A senhora devia contar essa história para Mainha e meu Pai pararem de brigar. Os adultos brigam muito! Nós, crianças, quando brigamos, fazemos as pazes logo...
-É, minha querida, as crianças sabem brincar com a vida!...
-Vou brincar com as minhas bonecas e todas irão morar no mundo do Sol, quando não foi desfeito...
-Vó, quando tiver bem chato lá em casa, eu voo até o Sol e fico com os meus cabelos junto com os cabelos da menina!...
- Sim. A menina era parecida com você!...
- Você sabe como voar?
- Sei, Vó. É fechando os olhos e imaginando!...
- Isso, minha bonequinha!... 




 Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

 Imagem: Obra de Richard S. Johnson.



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Melodia dos Gestos




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A minha pulsação grita
Num percurso das veias,
O desejo
Que em ti
Eu moro.

As batidas do meu coração
Giram na corda
De um eterno elo
Que te captura.

A minha respiração toca
Em tua epiderme
A nossa música:
Melodia de gestos
Na imensidão da nossa unidade.




Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Alexandrina Karadjova.



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Gotas de Orvalho





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A palavra por dentro
Vestia rosas amanhecidas
Com o frescor da emoção,
Colhida pelo coração da vida.

A vida se passa no coração
Inquieto,
Insubmisso,
Com gotas do orvalho,
Discretas,
Invisíveis,
A tornar-se música
Numa escala dos dedos.






Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Alexandrina Karadjova. 




                    

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Voo das Borboletas





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Não cala a verdade
Que respira em sílabas de
Um silêncio leve,
No qual a alma pousou,
Bordando a infinitude
Breve...

Nos olhos,
A pintura do voo das borboletas
Num jardim bem perto.





Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Alexandrina Karadjova. 



sábado, 11 de fevereiro de 2017

O Brilho do Anonimato...





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A sua avó disse um dia: “a caminhada precisa ser com os pés no chão, para sentir o contato com a terra; sendo as escolhas com o coração, e a coragem de mudar de rumo se for necessário...”.

Ela entendeu que no coração se guarda a dignidade dos sentimentos e, na coragem, a vontade de seguir na coerência dos seus valores nobres.

Resolveu equilibrar nas mãos limpas todos os sonhos existentes no seu olhar e todos os mapas de responsabilidades, para que seus passos sejam pequenos voos de instantes no seu anonimato.


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Richard S. Johnson.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O Mistério do Simples





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Nada de peso,
por dentro textura suave
com gestos de garça...

pequenos e simples prazeres
na colagem invisível
das paisagens da minha janela.

A música no piano,
a silenciar ruídos
desnecessários.
O olhar no registro, a colecionar
cenas poéticas do imprescindível  sentir;
a fragilidade efêmera da vida,
guarda o mistério da entrega.





Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Iovka Mechkarova






                      


O Blog em pausa devido à minha indisponibilidade de tempo.
Quando eu puder eu voltarei.
Agradeço a todos pelas leituras e comentários atenciosos.
Beijo e Abraço de Paz!
Suzete.

Ps: Continuarei a publicar os comentários, pelos quais,
      agradeço antecipadamente.


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Ela Atemporal





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Ela olhava as setas de armadilhas expostas em coluna vertebral da esquina dos enganos. Decidiu silenciar os ecos de qualquer utopia de um mundo fraterno.

Sabia o quanto o seu coração vagamundo pousava no "coração vagabundo" bossa-nova, na voz do João Gilberto, cujo sonho de uma época que não foi sua, mas escolheria pousar naquele espaço-tempo em que a música soprava o amor numa delicadeza de eternidades; a entrega era uma suavidade  de certezas...

Ela no romantismo poético se perde na poeira deste mundo feito de estalos de dedos do imediatismo e, no ato de esconder os olhos na ignorância de não saber das janelas da alma, em que o brilho dos olhos diz mais do que as palavras, na interligação dos pensamentos, na viagem íntima do percurso libertário sem fios, sem bateria e sem erros.

Ela, com este coração frágil atemporal, voa para um tempo azul seu, e ao mesmo tempo, os passos seguem a caminhada na chamada das responsabilidades, no carimbo dos dias. 


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: obra de Richard S. Johnson.



sábado, 21 de janeiro de 2017

Pouso





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A minha vida

    Tem um doce perfume,

Que vaga

       Vaga-lume.

Um clarão discreto

De um tempo curto,

     (Pensamento)

De um sopro de segundo,

No claro e escuro;

     Vaga
    
     Vagamundo. 


Apenas, sei que a minha presença

    Faz pausa

   E pouso

Inspirando o jardim...




Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de  Iovka Mechkarova. 


domingo, 15 de janeiro de 2017

O Amanhã do Ontem...







         
Eu tinha dezesseis anos, carregava a minha poesia no equilíbrio dos dias entre uma rotina de estudos e leituras. O meu universo poético era secreto: não partilhava. Poucos sabiam que eu escrevia, e raros os que liam. Para mim, a poesia era um espaço meu, um sentir, um olhar... Quase uma inscrição da minha alma; a revelação deste meu olhar que não muda o mundo. O mundo permanece o mesmo, as pessoas também. Sempre preferi a minha viagem nas ondas do meu pensamento, construindo trilhas de voos imaginários, cobertos do amanhã, numa brevidade de constatação da roupagem do tempo que já se tornara ontem...

Nesta mesma  época, estava matriculada no cursinho para vestibular. A aula de Literatura era especial, o professor Tomás era um mestre no encantamento para a poesia. Márcia, uma amiga do cursinho, era a única que sabia que eu escrevia poesia, ela também escrevia. Depois de muitos pedidos dela, resolvi lhe entregar um poema meu para que ela lesse em sua casa.

No dia seguinte, na aula do professor Tomás, ele nos diz:
- Hoje irei analisar um poema de uma aluna desta sala, claro, com a permissão dela.
Quando a minha surpresa ao constatar o meu poema no quadro, e Tomás se dirigi a Márcia como a autora.
De súbito, fiquei em pé olhando para Márcia, com o meu silêncio questionador!...
Tomás imediatamente percebe algo estranho e verbaliza. Diante da atitude imperativa do professor, a Márcia revela que aquele poema não era dela, mas de uma amiga da sala (no caso eu...). Os poemas dela todos estavam assinados e aquele era o único que não, pois estava ali por engano.
Após a aula tumultuada, ele conversou com as duas. Eu estava muito perplexa com tudo. Quanto mais a Márcia tentava se explicar, a complicação crescia com novas dúvidas, que se encaminhavam para uma falta de lógica geral.

O professor Tomás foi a parte boa da história. Com ele aprendi muito do universo da poesia. Nunca esqueci das recomendações: assinar, ler, sentir e reler o poema; e a principal: a leitura ser um ato de amor. Ele dizia que há uma diferença muito grande daquele que se esforça a ser um poeta e do que nasce poeta. Porém, para os dois tipos era necessário sempre aprender e evoluir no caminho da poesia. Ele somente não entendia a minha resistência em publicar os meus poemas. Conceituava a minha juventude como responsável pela minha introspecção e sentimento de posse sobre os meus escritos, num determinismo de não partilhar com o mundo. Assim, ele levava os meus poemas assinados, datados; retornando-os para mim, ricos com o olhar do mestre que amava e sabia do imensurável da poesia. Nas suas mãos, cada palavra era sentida e entendida com a beleza essencial de quem olha, toca e encontra o tom da afinação, a música já existente com todo o seu mistério...

Hoje, soube que ontem ele tinha falecido (complicações de um trasplante de coração). Logo ele, com um coração grandioso, repleto de registros poéticos.  

Esses amanhãs, do ontem, às vezes são muito dolorosos, mas quando focamos a emoção nas lembranças sublimes, a dor canta uma saudade doce.
Sabemos que tudo vale a pena, quando a alma não é pequena. Como dizia o maior de todos os poetas, o Fernando Pessoa.
                        
      

  Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)
   
  Imagem: Obra de Alberto Pancorbo.
        
         
              

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Delicado Voo




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Ela deixou as palavras ocuparem os seus lugares e, num ponto de observação, vestiu as suas mãos de significados invisíveis aos olhos nus.

Num aceno de adeus deixou sentires únicos vibrar com as asas emprestadas da sua vizinha de árvore vista da janela - uma Bem-te-vi-,  que generosamente doou a possibilidade do voo num espaço etéreo dos sonhos guardados; escritos no guardanapo rosa da poesia sem nome e sem estrada.


Ela foi neste céu sem nuvem. Nenhuma palavra morta circulava e gestos de pássaros inscritos de silêncios, deixaram as suas belas lembranças passearem por dentro, acordando delicadamente o imprescindível sentir. 


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Richard S. Johnson.




sábado, 7 de janeiro de 2017

Emoção




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Um pingo
Num ponto
Da geometria do meu rosto,
Perto dos olhos,
A fazer uma sombra
De uma palavra
Inscrita.



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Anna Razumovskaya.