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sábado, 2 de setembro de 2017

Pop, o Cão Nada Popular...




Lembrou-me de um cão preto, com uma mancha branca que mais parecia uma gravata. Ele se afeiçoou somente a minha mãe, devido à semelhança física com a sua antiga dona, que falecera de um trágico acidente de carro. Minha mãe, que não gostava de criar animais domésticos, e sempre recusava as minhas solicitações de levar para casa um animalzinho para eu criar. Nunca permitia. Só me deixou criar um cágado jabuti, e posteriormente um cão, depois do seu gesto de solidariedade com o cão Pop. Com a morte da sua dona, Pop não queria mais comer,  ficou mais agressivo com todos da família e mordia quem se aproximasse dele.

Minha mãe ficou encantada com adoração que o cão Pop demonstrou para com ela, desde o primeiro contato. Ela anotou todas as manias (mimos) que a dona de Pop lhe proporcionava. E claro, com a sua mania de perfeição, proporcionou mais mordomias de alimentação caprichada para o Pop, a minha mãe sempre foi uma talentosa e excelente cozinheira, a sua comida era tão deliciosa que ninguém resistia aos banquetes oferecidos por ela. O meu pai questionava aquela solidariedade da minha mãe para com o Pop, uma vez que o mesmo com tamanha agressividade, causaria transtornos  à  nossa  família, menos para minha mãe, uma deusa para ele...

Tínhamos um vizinho, um capitão aposentado por cegueira decorrente da participação na guerra. Era um bom contador de histórias. Muito  austero e, por isso, considerado antissocial.  Fez amizade com os meus pais, adorava os lanches feitos por minha mãe, e gostava muito de mim, por ser  boa ouvinte das suas histórias e dos meus questionamentos, fazendo perguntas que o deixava encantado. Porém, ele era racista - um grande defeito dele.  Todos nós o censurávamos (em sua presença), por este tipo de conduta. Ele e o Pop foram ódio à primeira vista e em todos os encontros. O Pop era preso no quintal a uma distancia grande, porém emitia latidos constantes e agressivos para o capitão, que sempre ficava no terraço da casa.  Durante a semana, pelas manhãs, o Pop ficava solto em casa com a minha mãe, quando todos da família estavam fora; meu pai no trabalho, meu irmão na faculdade, eu e minha irmã na escola.

O capitão Menezes, assim como o Pop, não era popular. E quase todos do bairro gostavam de manter uma distância regulamentar sobre eles: em relação ao capitão, devido ao seu jeito temperamental. Com relação ao Pop, por conta da sua agressividade. Mas, entre mim, uma menina encantada com as histórias contadas e inventadas por minha avó, e o capitão também contador de histórias - ele tinha um hábito da leitura de grandes romances da alta literatura e, depois da cegueira, ficou a conviver com o arquivo dos universos mágico-literários dentro de si - existia uma sintonia na partilha desta arte, do contador e da ouvinte. Para ele, as minhas perguntas alimentavam a sua fabrica de imaginação e com isso novos enredos, novos personagens e novos finais aconteciam perante os nossos olhos da alma, ávida de fantasia. Uma vez a minha mãe se referiu ao capitão como “mentiroso” e eu de imediato a recriminei, corrigindo-a que o capitão não era mentiroso, ele era contador e inventor de histórias. A minha mãe com seu jeito irônico, me respondeu que eu tinha acabado de inventar um  novo nome para o mentiroso.

Foi o capitão também que rebatizou o meu cágado de nome “Cometa” para “Fittipaldi”, de quem ele era fã, acompanhando as corridas de fórmula um. Com o seu gênio explosivo, também odiava quando o seu ídolo perdia. Por vingança, nomeou o meu cágado com nome do piloto, numa irônica homenagem. Lembro-me da sua frase: “Suzete, o Fittipaldi daqui tá melhor do que o Fittipaldi nas pistas, eu aposto no daqui!”.

Excepcionalmente, teve um sábado que nós (eu e minha irmã) saímos com meu pai, meu irmão foi para a casa da namorada. Minha mãe, sozinha em casa, soltou o rabugento e singular Pop. O capitão entrou com aquela voz grave e alta no terraço, o Pop pegou na sua canela, com todo gosto de vingança, e ele a meter a bengala no Pop. Minha mãe chama o Pop, que a obedece como um cordeirinho...

Foi um encontro explosivo, agressivo e destrutivo para ambos. O capitão ficou com uma tatuagem na canela e tomou vacina anti-raiva, mesmo  o Pop sendo vacinado. Mas, a raiva dele nutrida pelo capitão, por segurança, imaginamos que a raiva “emocional” do Pop tivesse um veneno fatal. O prejuízo sofrido por Pop foi também grave: ele teve um derrame no olho que levou a bengalada do capitão. Por cuidados e mimos da minha mãe, ele não perdeu a visão desse olho. Todos em casa fizeram campanha para minha mãe dar o Pop a outra pessoa; argumentando que o cão era violento e desequilibrado. Todos mostravam a minha mãe, pequenas marcas de mordidas do Pop e o meu pai, que tinha muita raiva dele, pois o cão nutria tanto ciúmes da minha mãe, que às vezes de longe não parava de latir para meu pai, quando ele se aproximava dela.

Confesso que o Pop era muito estranho, mas nunca fui mordida por ele. Comovia-me aquela adoração dele por minha mãe. E também o fato de minha mãe ter sido solidária com o mesmo amor que a sua antiga dona lhe dedicara.  E assumido a responsabilidade sobre o Pop; aquela criaturinha rabugenta, agressiva e com a capacidade de amar uma única pessoa.

Esta história do Pop na minha infância,  fez-me retornar à minha gata Chanel; uma gata também preta, vira-lata, que foi um dos maiores amores que tive na vida. Neste momento faço a ligação de semelhanças dela com o Pop, só que a Chanel era agressiva exclusivamente com o meu outro gato siamês, o Shan.  Não aceitava que eu partilhasse a minha atenção com o Shan. A experiência de amor com animais são repletas de uma doação do amor incondicional, o amor da aceitação que vem da poesia dos gestos!...


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)