segunda-feira, 16 de abril de 2018

Poema José de Carlos Drummond







                                 Pernambucano Paulo Diniz (cantor, compositor e poeta)


          José



E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio 
 e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?




 

                  
                    

            Partilha: Este grandioso poema do mestre    poeta Carlos Drummond, foi musicado pelo              "arretado" (como diz na minha terrinha...) e         competente artista  Paulo Diniz. O grande mestre     poeta Drummond disse: "depois que o meu poema foi tão bem musicado, não consigo mais pensar no poema sem música!".  Beijo e Abraço de Paz. Suzete Brainer.

Dedicado ao povo brasileiro!! ( "José!, José, para onde?"...). 


                           















9 comentários:

  1. Oi, Suzete! Esse poema é fenomenal, dolorido, sofrido, parece uma vida sem jeito... E o interessante é que agora, nesse momento que o Brasil atravessa, está mais atual do que nunca! Conforme as coisas... capaz de virar nosso Hino!
    Não tinha visto musicado, cantado pelo pernambucano Paulo Diniz. Diferente, válido, sim. Eu conheço interpretado pelo próprio Drummond. Cantando ainda não!
    Beijo, querida, uma ótima semana.

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  2. Bem lembrado. O poema de CDA musicado por Paulo Diniz vem a calhar. Mas não perderemos o rumo. Estamos acordados e quem está "deitado em berço esplêndido" não demora a perceber que "a coisa aqui está preta"!
    Beijos,

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  3. Muito bom!! Parabéns :)!!

    Beijos. Boa noite

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  4. Olá, Suzete!
    O primeiro poema de Drummond que "ouvi" foi José. Na minha adolescência, a professora declamou "José", numa de suas aulas de português. Não demorou muito para querer saber o que tinha ao meu alcance sobre Drummond. Os seus livros, que não os encontrava nas livrarias, encomendava-os. Drummond viria a ser o meu poeta favorito. E o é até os dias atuais. Tu sabes, Suzete, que não se pode gostar da poesia de Drummond sem gostas também da poesia de Manuel Bandeira e de João Cabral de Melo Neto. Na realidade, esses três são os meus poetas favoritos.
    Parabéns, querida amiga Suzete, por esta edição
    Uma excelente semana.
    Beijo.
    Pedro

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  5. Maravilha , Suzete . Adorei !!!! Beijos , minha sensível amiga .

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  6. Bom dia. Muito bom de ouvir. Parabéns

    Hoje:- {Poetizando e Encantando} Se chegares, amar-me-ás eternamente.

    Bjos
    Votos de uma Óptima Terça-Feira.

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  7. em toda a parte há um José que se interroga, amargo e vazio!

    e em toda a parte há um José que das fraquezas faz forças e se ergue por que é "duro e não morre" e continuará, (mesmo sem galope) em busca "da porta que não abre" e da Utopia (morta), levando sempre mais longe a angustiante pergunta - "e agora, José?".

    excelente partilha, Suzete!

    beijo, amiga

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  8. Boa tarde Suzete!
    Muito bom ouvir. Gostei muito do poema.
    Uma boa semana!
    Um beijo!

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