sexta-feira, 21 de abril de 2017

A Insubmissão da Borboleta Azul





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Asas de uma borboleta
            Azul
       Que
Decifrou no voo
A liberdade de Ser;

Não permitiu a
Intromissão
Dos seus gestos delicados
E arriscou com a sua liberdade
Toda a fragilidade da sua existência.

As pedras permaneceram
Sólidas e eternas
A serem pisadas no caminho.


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Alexandrina karadjova.



                        

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Crônicas e Contos Que Eu Adoro!




Das Vantagens de Ser Bobo



O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando." 

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. 

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. 

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. 
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?" 

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! 

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. 

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem. 

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas! 

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.


Autora: Clarice Lispector.


Clarice Lispector: Nasceu em Tchetchelnik, pequena cidade da Ucrânia, e chegou ao Brasil aos dois meses de idade, naturalizando-se brasileira posteriormente.Criou-se em Maceió e Recife, transferindo-se aos 12 anos para o Rio de Janeiro, onde se formou em Direito, trabalhou como jornalista e iniciou sua carreira literária. Viveu muitos anos no exterior, em função do casamento com um diplomata brasileiro, teve dois filhos e faleceu em dezembro de 1977, no Rio de janeiro. 




Num mundo repleto de "espertos", Ser "bobo" é um ato poético, lírico, transgressor  e libertador!...
Viva o estado de Ser "bobo"!
Eu sou boba com a grandiosidade da literatura da Clarice Lispector, com um ineditismo expressivo, que nos toca de forma inesquecível. A escrita da Clarice Lispector reside em nós para sempre...




Dois grandes Artistas nordestinos: Alceu Valença (pernambucano e autor da música - Coração Bobo -) e Zé Ramalho (paraibano), nos deixa bobos num encantamento ao escutá-los!

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Quinta-Feira...





Hoje acordei com aquela saudade dorida. Não a doce saudade. Escutei o som do seu riso na animação das compras para o banquete do almoço da quinta-feira santa; com todos os pratos tradicionais: o peixe, bacalhau e camarão (especialmente para mim...). O seu carinho em cada comidinha feita pelas suas mãos de excelente cozinheira. O tempero principal sempre nas comidinhas eram o carinho amoroso e sua alegria de proporcionar o prazer gastronômico para cada filho e visitante. Os seus olhos miudinhos a perceber cada sabor degustado por cada um...

Não, mãe, não teremos a quinta-feira com o seu sorriso aberto, acompanhado com seus olhos miudinhos, a captar o astral da nossa alma... A quinta-feira santa é morta, sem a sua presença. Sem a evidência de que na sexta-feira o seu jejum programado na tradição do ritual da minha avó, bisavó e a senhora também, a levar cada filho junto da sua espiritualidade; da sua luminosidade com asas na proteção, sinto falta...

Nesta quinta-feira ficarei num silêncio absoluto para usufruir melhor o seu abraço e farei algumas comidinhas tradicionais em seu nome. Tenho a certeza de que eu serei o seu sorriso na quinta-feira. Hoje, deixa a minha tristeza passar, ainda é quarta-feira, mãe!


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)









domingo, 9 de abril de 2017

A Surpresa Esculpindo o Olhar





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Passeio pelos espaços vazios
Ao toque da pele
No registro da vida
Em Rio profundo
E reluzente
Das imprevisibilidades...

Guardo o sabor
Das surpresas
Bem perto dos olhos
Que correm em liberdade!





Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Elzbieta Brozek.


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Escultura Infinita do Tempo





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Brilha a palavra sem roupagem,
Nenhuma fantasia valiosa de destaque.
Nua no sentido honesto do ato:
Palavras
Sentimentos
Em contíguo espaço,
Expandindo gestos de delicadeza
- A alma - escultura infinita do tempo...

O silêncio sedimenta a música
Estrutural da sua essência.
Os seus gestos, na contramão da
Violência,
Caminham solitários
Diante da multidão veemente
Armada.
Há no espaço da paz
Uma janela para o tempo,
Numa infinitude de minutos
A soprar um sossego
Imprescindivelmente
Libertador!...


Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Alexandrina Karadjova.