sábado, 17 de setembro de 2016

As Pazes com a Natureza...





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A memória abriu a porta e me levou a um período em que morei numa casa duplex num privê de dez casas, com uma bela área verde de lazer, onde eu gostava de preservar aquele verde com árvores antigas e, na minha casa, muitas plantas. Na varanda do primeiro andar eu tinha vários depósitos para os beija-flores e outros passarinhos (a beber aquela água doce, trocada com o maior carinho e limpeza), de todas as cores e tamanhos a colorir em vida a minha varanda. Eu tinha o meu gato Shan (filhote ainda) que ficava a olhar todos através do vidro da janela do meu quarto. Era o seu vídeo game e, para mim,  um encontro com cada um que tinha nome e sobrenome, dado pelo meu olhar atento e alegre, de me sentir privilegiada com tanta beleza voando para minha casa, como se casa deles fosse.

Existia no privê um grupo de seis meninos; o mais velho, de oito anos,  liderava os menores, na faixa de 7 anos. Estavam naquela fase de agressividade com a natureza, os animais e numa autoafirmação do contra. Eles não gostavam da minha veneração amorosa à natureza.

Um dia fizeram uma "serenata" com música e letra de protesto contra a natureza bem abaixo da minha varanda, com coreografia e tudo, cada um com baleadeira na mão e o líder com o violão, cantavam e todos apontavam as suas armas de matar passarinho para minha varanda:                            
                                             "Vamos acabar com a natureza;
                                             Vamos matar os passarinhos,
                                             Vamos destruir os seus ninhos
                                             E sem mãe natureza.
                                            Fora os passarinhos
                                            Fora os passarinhos
                                            Fora os passarinhos
                                            E sem ninhos...!”

Eu a escutar e morrer de rir, com aquela criatividade rebelde deles. Como eles não sabiam a minha reação, por conta do meu silêncio, falarem de fora: “Ela não fez nada. Não disse nada. Será que ela não está em casa?” Quando resolvi abri a porta,  escutei de longe a gritaria deles: ”Ela abriu a porta e vem em nossa direção!”.

Aproximei-me deles e disse: - Meninos, sentem aqui e vamos conversar!- Eles se aproximaram devagar, e cada um falava uma frase ao mesmo tempo, numa confusão a dissolver o silêncio no breve espaço pacifico... O líder me disse: “Você veio brigar com a gente por nossa música e vai reclamar aos nossos pais pelo nosso comportamento?” E eu com a minha voz calma a lhe dizer que gostaria de dialogar com eles. E, eles a olharem entre si, sentaram perto de mim. Conversamos por varias horas, e falei da criatividade deles com a música, letra e coreografia. Depois a importância de amar a natureza e conviver bem com ela, pois ela nos ensina se tivemos a capacidade de olhar para cada detalhe belo e generoso que ela nos oferece todos os dias...

No final estávamos a observar os passarinhos, da minha varanda, e quando o líder me disse: “ Su, como faço outra música para a natureza, como faço as pazes com ela?” E eu lhe respondi: - Você já fez as pazes com a natureza, a música vai chegar e será muito bela!...-



Suzete Brainer (Direitos autorais registrados)

Imagem: Obra de Arsen Kurbanov





11 comentários:

  1. Minha querida: além de muito bem narrado, este episódio é mais uma prova da tua sensibilidade e sabedoria em lidar com situações de desafio (e como muitas crianças gostam de provocar!!!). Importante é desarmá-las, precisamente com atitudes deste género. Depois, é só transformar o ato de rebeldia em lição de vida. E é muito gratificante para o educador!
    Bjo, Suzete :)
    (Já sabes que, quando venho, é para passar tudo a pente fino. Como mereces.)

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  2. uma história de crianças metaforicamente erguida em lição de (para) adultos.

    mas, neste plano, não sei não, minha amiga, se a sensatez a "ecológica" da(s) humana(s) criatura(s) será assim tão idílica...

    em qualquer caso um belíssimo texto, exprimindo exemplarmente a apuradíssima sensibilidade da autora.

    beijo

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  3. Um episódio muito expressivo. É preciso saber lidar com as crianças por mais rebeldes que sejam... Achei maravilhoso a forma como o fez.
    Uma boa semana.
    Beijos.

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  4. Vou ler este também
    mas não posso agora
    está na hora do trem
    "... nem mais um minuto com você"
    "... só amanhã de manhã".

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  5. Eu creio mesmo que um dos males deste mundo... é realmente as palavras serem usadas como arma de arremesso... e não como instrumento de entendimento...
    Quantas tensões e conflitos, desaparecem depois de uma boa conversa... o mal é nem haver tempo para uma conversa... quanto mais... para uma boa conversa...
    Um texto adorável, que enaltece a importância de uma boa conversa...
    Uma boa conversa... pode até mudar vidas... quem sabe um desses garotos um dia, até não se venha a tornar um ambientalista?...
    Só agora passando por aqui, nestes dias um pouco mais festivos, por estas paragens... e em que tenho tido, e ainda terei algumas visitas por casa... pelo que andarei um pouco mais ausente da net...
    Um beijinho imenso, agradecendo a sua sua carinhosa presença, por lá no meu canto, Suzete... que ainda não tive ocasião de agradecer mas o que farei, assim que tiver oportunidade... aproveitando antes o tempo, para vir apreciar as últimas novidades, por aqui...
    Feliz semana, Suzete! Beijinhos!
    Ana

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    Respostas
    1. Querida Ana,

      Grata pela tua leitura e compreensão tão
      profunda sobre o texto. Este tipo de compreensão
      que valoriza o significado das palavras nesta
      sintonia de comunhão de almas neste entendimento
      existencial.
      Quando há sintonia, há compreensão e partilha.
      Sabemos tão bem, que as pessoas usam da palavra
      como bomba para destruir e agredir, e quando
      existem aqueles que gostam de pousar as palavras
      como pontes de gentilezas e generosidades ficam
      a sobrar neste meio tão competitivo de
      egos famintos!...
      Beijinhos, querida Ana luz que semeia a
      gentileza neste meio de pedras... rss

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    2. E você descreveu de forma perfeita... aquilo que falta neste mundo, Suzete... que pontes sejam construídas através das palavras... para melhores entendimentos... e acções visando uma melhor compreensão do mundo, e um maior humanismo...
      Um beijinho grande, agradecendo as suas carinhosas palavras, e amizade...
      Ana

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  6. Aos amigos da Leninha (blog MULTIPLICIDADE DE MIM – http://helena.blogs.sapo.pt), peço que passem pelo seu blog para se inteirarem de uma notícia.
    Grata
    Aninha

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  7. Suzete , gostaria de ter sido sua vizinha . Que beleza que nos descreve . Beijos

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  8. Nada como sentar e conversar, ainda mais com as crianças, rebeldes ou não. Uma lição para a vida. Adorei, Suzete.

    Beijinhos.

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